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Rua da Copa

 

Nunca entendi direito como nasce uma rua da Copa, dessas assim toda enfeitada e pintada, que parece brotar da noite para o dia nos bairros da cidade, com bandeirinhas feitas de papel ou plástico colorido tremulando ao vento, produzindo aquele barulhinho que é como arrulho do mar.

Não sabia até deparar com uma rua cuja montagem fui acompanhando aos poucos, sem querer, primeiro desatento e depois como uma finalidade de fato, um propósito de vida, um grande ponto de interrogação existencial.

Explico. A cada vez que passava para deixar minha esposa na faculdade, uma parte da via tinha sido coberta. Parava, descia, olhava para um lado e outro, não via ninguém. Nem sinal dos autores da obra coletiva, esses Banksy caboclos metidos em trajes camuflados que assaltavam o espaço público, incógnitos até de si mesmos.

Quem eram, o que comiam, de onde vinham?

Batia nas portas, alguém atendia, mas era um mistério, o vizinho dizia que tinha sido um grupo de meninos de outra rua, mas isso não explicava nada. Afinal, quem sairia de casa para embonecar uma rua que não era a sua? Pois é.

Uma mulher foi além: disse que tinha sido a prefeitura. Quase engasguei. Ela não só reafirmou, como deu detalhes, descreveu os funcionários que estacionavam um furgão e depois se dirigiam até o meio-fio em silêncio, cada um com um cigarro pendurado nos lábios.

Não me convenci. A versão soava estapafúrdia de muitas maneiras, mas, apenas por dever de ofício, resolvi ligar pra lá, pra sede do poder administrativo, pra sala do prefeito. Embora alguém do outro lado da linha tivesse abafado o telefone, ouvi risadas distantes, primeiro discretas e depois em coro, que iam se expandindo à medida que a pergunta que lhe fizeram era repassada de boca em boca.

Era isso, eu estava sendo motivo de piada interna em alguma repartição sem graça porque uma senhora usando camisa de academia e bandana rosa tinha suspeitado que uma equipe de servidores prestes a se aposentar punha as bandeirinhas esvoaçantes quando todos estavam dormindo, inclusive ela, que tinha insônia e ficava vendo terço da meia-noite até as duas da manhã.

Mas tudo bem. Aquilo tudo aumentou a curiosidade. O que importava era que o resultado era bonito, agradável, eu ia e voltava na rua, cujo pavimento também tinha sido pintado com as cores do Brasil, uma bandeira grande de ponta a ponta e, acima e abaixo, a pergunta que era uma afirmação: “o hexa vem”.

O hexa vem?

Lembrei da rua da infância, quando parávamos os afazeres da escola para, em mutirão, apetrechar os postes com verde-amarelo. Ninguém havia pedido, ninguém dizia nada, nenhum prefeito ou vereador, nenhum diretor ou chefe de associação. Era algo que simplesmente dava na telha de algum morador, sempre o mesmo morador, que decidia começar e então os demais o acompanhavam, nesse movimento coordenado por forças cuja origem não dominamos.

Numa época sem WhatsApp, era mais interessante ainda que algo assim se passasse, ou seja, que as pessoas nas suas casas de repente se erguessem do sofá no final da tarde para cortar papel e cartolina e colar em barbantes que depois seriam pendurados no quarteirão inteiro.

Quase como numa cena de “Invasores de corpos”, mas em vez de apontar para os outros e gritar, as vítimas pegavam tesoura e picotavam papel acocoradas no chão.

Porque se a rua democraticamente deliberava que a via seria vestida a caráter durante o mês de junho em anos de Copa, não seriam apenas uns poucos metros, da casa da esquina até a metade, por exemplo.

Era tudo, a rua completa, de cabo a rabo, e quem não gostasse do farfalhar do material soprado pelo vento caprichoso, que procurasse algo com que se ocupar.

De todo modo, eram os adultos e as crianças que se dividiam no trabalho. Mais os adultos que as crianças, na verdade.

E naquela rua de hoje? Não se viam nem adultos nem crianças, nem velhos nem jovens, nem homens nem mulheres. As bandeirinhas, no entanto, estavam lá, lindamente separadas, obedecendo a uma proporção áurea entre elas, coladas a intervalos tão regulares e as cores rigorosamente escolhidas, sem repetição, que começou a parecer não apenas esteticamente bonito, mas esquisito.

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