Uma roda de crianças, seis ou sete de idades que variam entre cinco e doze anos, sobraçando pacotes de figurinhas sob olhares ternos e fiscalizadores de adultos, que presumo que sejam pais ou tios ou amigos ou apenas curiosos como eu, que não tomo parte em nada e estou só de passagem pela livraria aonde tinha ido comprar canetas e papel, não livros.
Uma ressalva: cada vez mais as livrarias se parecem com armarinhos vendendo papel almaço e toda sorte de lápis e lapiseiras, mas isso é tema para outra conversa.
As figurinhas estão organizadas em bolos, pilhas de médio e grande porte, divididas por seleção, grau de importância ou frequência no álbum. As repetidas de um lado e as mais raras, de outro, escondidas.
A cada nova transação, os meninos anotam num papel ou acionam algo num aplicativo que reproduz digitalmente o álbum que eles tentam completar com os rostos dos jogadores de futebol das 38 seleções que disputam a Copa do Mundo.
Ou foi assim que entendi o processo, posso estar enganado.
Já tentei completar álbuns antes, mas eram amadores, de papel vagabundo, nada parecido com o que vi ali, pequenos entomólogos dispostos a tudo para catalogar e juntar as peças que faltam nas brochuras ou libretos de capa dura antes do início do torneio.
Os meus eram baratos, não valiam o esforço nem o custo despendido, andávamos com eles a tiracolo sem medo de que fôssemos assaltados porque não custavam o que custa um celular, mas ao final prometiam premiação, seja um estojo de canetinha ou outra coisa, como um copo da Coca.
O que esses álbuns da Copa prometem? Não sei responder.
Cada pacote contém sete figuras, ao preço de sete reais. Faço um cálculo mental ligeiro: estimo em 1500 reais o valor para completar o álbum, mas posso estar enganado.
Sei que é antipático parametrizar a felicidade dos filhos, de modo que não tento confirmar essa projeção com nenhum dos pais envolvidos com a tarefa naquela tarde.
Apenas admiro o esforço, o empenho analógico das crianças, ainda que o apelo do celular permaneça sondando por perto. É como o livro de colorir, mas com a diferença de que não estão exercitando nenhuma função motora ou habilidade, somente enriquecendo a FIFA, o que também não deixa de ser algo mais nobre.
Não convencido, tento entender por que manter dois álbuns, completar um físico e outro digital, ou se o digital é apenas o espelhamento do físico, o seu simulacro, enquanto o original é guardado em casa, a sete chaves.
Seria isso?
Porque é de papel e tem mais valor, afetivo e financeiro, o álbum de verdade é como a bíblia da meninada, e vê-lo completo é como acessar uma palavra sagrada, um segredo que se revela quando a última imagem é afixada na folha, o último busto fotografado do jogador sorridente ou sério usando uma camisa vermelha ou amarela ou verde.
Talvez seja isso, o álbum completo é como o disco da Xuxa da nova geração (não pretendo elaborar isso).
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