Tenho me esforçado para capturar e entender o estilo da IA, identificando-o entre tantos outros. Quero saber quando estou lendo uma frase escrita por uma máquina, e não por um humano.
Como consumidor cioso dos meus direitos, me preocupo se o produto final que me entregaram é algo que de fato derivou do trabalho de alguém ou se foi apenas o ajuntamento de dados processados num milissegundo por um megacomputador fazendo-se passar por uma mente brilhante, ou não tão brilhante assim.
Mas a verdade é que me sinto cada vez mais burro por isso. Digo, por traçar uma linha no chão e dizer que não vou ultrapassá-la, por insistir em afirmar que desta água não beberei, mesmo sabendo que o mundo está engolfado por ela neste exato momento.
Afinal, escrever com IA se tornou uma atividade natural mais rapidamente do que eu tinha imaginado meses atrás, quando nenhuma Nobel de literatura havia ainda se manifestado em apoio a essa colaboração entre gente e IA, equiparando-a a uma interação rotineira entre homo sapiens e uma geladeira.
Por outro lado, me pergunto se isso é realmente algo pelo qual devo me sentir ameaçado ou se se trata de uma abominação que as gerações futuras saberão repelir com energia, como o cigarro é hoje. Ou seja, se é um problema meu ou das minhas filhas e netas.
Enquanto isso, só me resta ficar resmungando pelos cantos da internet, vagando como um espectro, um pouco como uma sensibilidade anacrônica e resistente ao que se revela nos piores momentos como um avanço inexorável das hordas de Mordor pela Terra-Média.
Porque é nisso que escrever está se convertendo, isto é, o resultado de uma longa conversa entre a mente e uma tela, que agora passa não somente a responder, mas a sugerir caminhos teórico/metodológicos e opções estéticas ou de qualquer outra natureza criativa, entregando melhor e em menos tempo o serviço pelo qual ainda se paga.
Como não supor que isso altere de muitas maneiras o que fazemos, a exemplo do que já se vê nesses textos hipercorretos que se espalham pelas redes, numa linguagem que apaga fricções, nuances e tensões do processo de produção do conhecimento do qual a escrita é parte?
Estou falando dessa sintaxe exageradamente explicativa, a ponto de neutralizar as lacunas do pensamento. E não porque as solucione, mas porque as deixe de lado para adotar esse jeitinho prescritivo cuja origem é o conjunto maciço de dados que a inteligência explora até se pronunciar num tom categórico e adulador, convencendo o seu interlocutor de sua própria genialidade.
Grosso modo, esse tem sido o novo padrão de escrita mesmo entre quem não usa a IA, de maneira que as estruturas argumentativas estão agora mesmo remodelando a cognição de jovens e adultos ao traduzirem tudo para os termos de uma equação exageradamente simplista.
“Não X, mas Y” – uma linha contrastiva que a IA usa a torto e a direito para criar esse faz-de-conta moderno do qual todas as zonas de sombra estão sendo gradualmente riscadas.
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