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Mutação da comida

 

Tenho a sensação de que a comida se tornou uma coisa inespecífica, genérica. O queijo não é mais queijo, mas um produto emborrachado ao qual se adicionam soro e mais alguma substância cuja essência não consigo definir.

O biscoito se transmutou, esfarelando-se mais rapidamente na mão ou se desprendendo na boca, sem necessidade de mastigação.

E o que dizer do café? O café se metamorfoseou num inseto, tem cheiro de café, mas o sabor é outro e o preço também: mais elevado do que na semana anterior e sempre abaixo do que estará no dia seguinte.

Uma ida ao supermercado tem sido uma experiência tão intrigante quanto um episódio de “Arquivo X”. Me preocupo o tempo inteiro se não estarei sendo enganado, se câmeras escondidas não estão me acompanhando entre as gôndolas e se a verdade não está lá fora.

Que verdade? É o que tento descobrir atrás da fileira dos frios, sussurrando para mim mesmo e fingindo especial interesse numa lata de atum.

Frequentemente me sinto paranoico enquanto investigo rótulos e inspeciono as palavras nas marcas. Duvido de seus significados, desconfio se leite é leite realmente, se a aveia é aveia, se chocolate é chocolate ou alguma outra porcaria saborizada”, ou seja, que não é, mas pretende ser.

Passei a detestar a palavra sabor, aliás, virou sinônimo de enganação, de engodo, de conspiração, de uma máfia de agentes do governo alterando os códigos de barra do creme de leite na calada da noite para que ninguém perceba que os produtos expostos nas prateleiras apenas se parecem os mesmos de ontem, embora seus valores já sejam outros.

É como na ficção científica, em que o vizinho em aparência continua sendo o vizinho, mas um organismo a esta altura já se infiltrou em seu corpo pelas vias respiratórias, alojando-se na sua mente gelatinosa, de onde comanda os movimentos e o conecta com outros iguais a ele, um séquito de autômatos cuja finalidade é destruir a vida tal como é.

Assim me vejo pagando pelas uvas no supermercado, informando se é débito ou crédito e digitando os números do CPF. Ou pelo sabão, por exemplo. Tão inofensivo, ainda com seu odor de roupa de bebê. É como aquele pacote familiar, as cores são as mesmas, até o cheiro faz recordar o de antigamente.

Mas basta ler as letras pequenas para descobrir que na verdade se trata de um simulacro, um avatar, um tipo decalcado do original que difere da matriz apenas por esses detalhes.

Em suma, o sabão não é mais sabão. E o fermento também não, tampouco o pão, o frango, o vinho, a farinha e o açúcar.

Desconfio se o ovo é ainda o que diz ser.

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