Acho que nunca disse que minha vó amava o Sarney.
Amava de verdade, tinha fotografia dele por toda parte da casa, o mesmo sorriso de jacaré, a boca entreaberta, idade indefinida, uma cabeça angulosamente arredondada, os cabelos finos distribuídos no alto como cartas de baralho na mesa, os olhos suaves e umas bochechas de avô de filme da Sessão da Tarde.
Acho que era nisso que a vó gamava, o Sarney parecia meu avô, que tinha dado no pé de novo poucas semanas antes, como sempre fazia de tempos em tempos. Sabe como é agitada essa vida de quem tem dupla família.
A dele, a matriz, ficava no Rio Grande do Norte, a terra da minha avó, que ele despachou pra Fortaleza pra não dar problema com os outros parentes, a outra esposa, os outros filhos, as outras filhas.
Naquela época os homens se preocupavam se um filho de um casamento poderia de repente encontrar por acaso a filha de outro casamento.
O Sarney, não, o Sarney era sempre presente no retrato em cima do armário e noutro ao lado da cama e mais um na cozinha escura, iluminada com lamparina porque na casa não tinha energia elétrica.
Até os seis anos eu achava que o Sarney era meu avô, olhava pra ele e chamava de vô, a expressão cheia de ternura e a postura suplicante, perguntava ao Sarney quando ele ia voltar pra casa e se poderia me trazer um presente.
Quando tinha medo, rezava pro Sarney me proteger dos pesadelos e afastar coisas ruins que poderiam acontecer a uma criança num bairro como aquele.
A vó via tudo aquilo e não dizia nada, acho que pensava que era melhor que eu acreditasse que o presidente da República era meu avô do que me contar a verdade sobre o marido.
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