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A língua do amor

 

“Hora de voltar, Carlos!”, diz a mensagem da academia num apelo amoroso, como a implorar que reatássemos um casamento ou namoro depois de quanto tempo? Já nem sei, e talvez seja melhor que permaneça assim, cada qual no seu quadrado, os aparelhos e halteres de um lado e eu do outro.

Dias antes, porém, a plataforma de filmes e séries que eu havia assinado por quase três anos ininterruptos dissera à queima-roupa, depois de um desfecho de relação abrupto, ao qual se seguiu um hiato durante o qual nem ela nem eu proferimos qualquer palavra:

“estou com saudades de você”.

Assim mesmo, tudo em caixa baixa, intimista como postula a Noemi Jaffe, uma voz tão cuidadosa e familiar que de repente soa como uma canção perdida de Los Hermanos.

O que leva uma máquina a se abrir com tamanha coragem para um estranho ou alguém cuja vida ela julga conhecer e de quem se sente não somente próxima, mas apaixonada?

Deixo a questão de lado.

A loja de roupas onde havia comprado uma camiseta por 59 reais e um par de cuecas no Natal passado, por sua vez, não foi menos direta ao perguntar “por onde eu andava” e se não achava que já era o momento de retornar.

Sempre desse jeito: uma frase comovida, curta mas impactante, a apreensão na voz que imagino escrevendo ou ditando as palavras, o susto por recebê-las no celular ou na caixa de mensagens antes de identificá-las como abordagem comercial de uma empresa cujo setor de marketing agora trabalha e se relaciona com seus clientes – entre os quais me encontro, ainda que não queira – como se estivessem num enlace afetivo.

Não sei, não sei o que dizer, digo a mim mesmo num tom insincero, ponderando essas coisas e mais tantas outras enquanto vou excluindo uma a uma, no peito uma ponta pinicando (remorso?) como roupa nova que apertasse na axila e nas pernas.

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