Pular para o conteúdo principal

Listas

 

Há por toda parte listas de tipos variados, de filmes a livros, de séries a episódios embaraçosos de 2025, ano por si esquisito e marcado por eventos cuja variedade eu não ousaria tentar sintetizar, talvez por me considerar insuficientemente dotado para essa tarefa.

Eu vejo essas listagens e me sinto desalentado, claro, porque não li a metade da pilha de livros que imaginei que teria condições de ler e também porque, na verdade, não vi os 365 dias passarem, salvo quando houve esses momentos de atropelo ou de grande comoção, nos quais as rotinas se estancam e todos se entreolham mais ou menos espantados, mesmerizados mesmo.

Não lembro de tantos momentos assim, para ser sincero, mas a sensação que fica é a de esgotamento e excesso, embora não consiga situar com precisão a origem desse sentimento de que as forças se exauriram aos poucos até chegar ao volume morto, numa lenta saturação da qual não fui capaz de escapar, como uma colisão premeditada.

Talvez esteja na água, não sei, talvez no ar ou na comida, como um cordyceps, um fungo que, progressivamente, compromete as energias e drena a disposição e a capacidade de distinguir o que interessa do que é apenas espuma.

É possível que tenha relação também com essa impossibilidade cada dia maior de não saber se a foto ou vídeo de alguém é de verdade ou é IA, como se o real estivesse permanentemente sendo posto à prova, falseando, falhando sob nossos pés, e isso por si é uma atividade que consome bastante energia, digo, ter de se certificar de que o que se tem diante dos olhos é de verdade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Urikianas”

De memória, lembro do bar e o do rosto miúdo atrás dos olhos apertados, reluzentes, afogueados. Que ano era aquele? Tinha pressa, queria conversar, mas já estava de partida. Durante todo esse tempo, tive essa impressão de que era dessas pessoas que falavam enquanto se despediam, instaurando nesse movimento uma presença-ausência precocemente exibida. Parte de si ia embora, outra estava apenas de chegada, num desencontro de corpos e de tempos. A quem me perguntasse, dizia: estou esperando o livro que Urik escreve, tenho certeza de que guarda algo, de que é o portador de um segredo muito bem escrito, de que o que se lê é apenas ensaio, um jogo que se arma nessa vacância de espírito, exercícios de prazer. Então deu-se o sumiço. Soube que viajara, que estava longe, que exorbitara as fronteiras, que se desvanecera. Onde agora? Minas seria um paradeiro possível, no Rio fora visto entre árvores, em São Paulo uma fantasmagoria, esse perfil sem contorno que às vezes assumia mesmo em Fortaleza,...