Pular para o conteúdo principal

Caldo de ossos


Trata-se de pedaços de coisas que acumulei ao longo do ano, fragmentos escritos e depois abandonados, trechos de crônicas abortadas. Toda sorte de ideias e títulos de contos ou de novelas que jamais passarão disso, talvez porque goste da sensação de produzir esses começos sem que exijam de mim qualquer compromisso, sem que tenha com eles essa relacao possessiva ou de cuidado extremo, de maneira que não me preocupe se irão morrer por falta d’água ou de comida. Estão no mundo assim, falhos, e assim devem se virar, com suas metades faltantes.

E então, ao final, eu retorno e lanço um olhar que não é nunca de tristeza, mas de alguém que pelo menos remotamente pretende ordenar tudo aquilo? Não sei.

Acho que esse restolho é curioso, às vezes bonito. Tarde da noite, quando me volto e enxergo numa passagem um fiapo de luminosidade, não digo de elaboração nem de exemplo de uma prosa exuberante nem inventiva, mas de algo que carrega uma ideia – chamarei assim porque não posso agora, depois de um dia de trabalho, querer entender o que se passa ali na leitura do que não entendo direito.

Mas, voltando, tarde da noite, no corredor de casa, entre o quarto e a sala, é como se tivesse um contentamento difuso, espalhado por toda parte, sem alvo nem nervo nem órgão central que bombeia fluido vital para o restante do corpo. É um corpo descentrado, eviscerado, um corpo sem corpo, que está em toda parte e em nenhuma.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Urikianas”

De memória, lembro do bar e o do rosto miúdo atrás dos olhos apertados, reluzentes, afogueados. Que ano era aquele? Tinha pressa, queria conversar, mas já estava de partida. Durante todo esse tempo, tive essa impressão de que era dessas pessoas que falavam enquanto se despediam, instaurando nesse movimento uma presença-ausência precocemente exibida. Parte de si ia embora, outra estava apenas de chegada, num desencontro de corpos e de tempos. A quem me perguntasse, dizia: estou esperando o livro que Urik escreve, tenho certeza de que guarda algo, de que é o portador de um segredo muito bem escrito, de que o que se lê é apenas ensaio, um jogo que se arma nessa vacância de espírito, exercícios de prazer. Então deu-se o sumiço. Soube que viajara, que estava longe, que exorbitara as fronteiras, que se desvanecera. Onde agora? Minas seria um paradeiro possível, no Rio fora visto entre árvores, em São Paulo uma fantasmagoria, esse perfil sem contorno que às vezes assumia mesmo em Fortaleza,...