Não havia gosto, era mais um travo no paladar, pensou, uma falha no organismo, um breque nas engrenagens que geram a prova, a inexplicável pane das papilas, disse sorrindo, como se de repente todos perdessem as funções, a mãe, o pai, os irmãos, a namorada, um travo que imobiliza, foi assim com ele, foi assim com ela, antes e depois, até que resolvessem, até que considerassem a sério que o bastante era uma porção não satisfeita, o copo abaixo do que esperavam, aquém mesmo da linha que demarca hemisférios antagônicos.
Estavam além dos antagonismos, e isso era perigoso.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
Comentários