Pular para o conteúdo principal

Postagens

Futuro do pretérito

Poderia ser , a crônica de hoje no jornal O Povo. Acesso aqui .  Trecho: "A página da moda no Facebook – peço perdão caso não se trate realmente de novidade, tampouco de moda, mas é que costumo chegar sempre atrasado – sugere mais que um divertido jogo de inversão entre sujeitos; mais que o deslocamento súbito nas placas tectônicas do universo de referências dos leitores e usuários da rede; mais que o achincalhe deliberado com o que chamamos paternalmente de nosso lastro cultural." 

Rosa dos ventos

Dois homens chegaram muito cedo e começaram a limpar o terreno. Trouxeram ferramentas comuns e deram início à higiene da área, uma extensão cheia de garrafas de vidro e plantas e embalagens de produtos e animais mortos, cachorros, gatos e até um feto, foi o que disse o mais baixo deles e também o mais falante, um homenzinho marrom queimado que fuma bastante. O mesmo que me pediu um cigarro logo que pus os pés no corredor. Ele disse tem um cigarro aí, por favor? Respondi tenho e fui pegar um cigarro pro cara.   Aos poucos cobriram a parte norte, depois a sul, mas logo descubro que nunca aprendi exatamente onde ficam norte e sul, leste e oeste. O norte da cidade, por exemplo, onde fica? E o sul? Sem contar as regiões que não são nem uma coisa nem outra, como o sudeste, nordeste, noroeste etc., que, por natureza, encontram-se em algum ponto indeterminado.   A rosa dos ventos é incompreensível.

A fila no café

Toda cultura e educação e viagens ao exterior e visitas a galerias de SP ou RJ ou mesmo temporadas inteiras em périplo pelos destinos menos convencionais do mapa múndi não impedirão qualquer pessoa de disputar da pior maneira possível uma cadeira no café da livraria. A fim de garantir espaço para si mesma e para a própria família, a pessoa em questão fará tudo que estiver ao seu alcance na busca primitiva pela porção a que tem direito no rarefeito espaço lítero-gastronômico do estabelecimento, um dos mais movimentados da cidade numa noite de sábado e também índice de certa familiaridade com o que há de mais sofisticado em matéria de bem-estar espiritual. Para tanto, a pessoa se verá inclinada a recorrer a expedientes que, em outra situação, em outro momento, em outro país, acompanhada de outras pessoas que não aquelas do café localizado em Fortaleza, ou seja, em circunstâncias absolutamente diferent es, não hesitaria em condenar. São eles: a pressão psicológica que...

O lugar da barriga no mundo

A barriga é o verdadeiro espelho da alma. E se ninguém havia dito isso antes, trata-se de perdoável lacuna no desenvolvimento da ciência axiomática. Afinal, nem todo mundo atribui à região um protagonismo além do que desempenha no processo digestivo, o que é um grave erro. Mais que uma máquina de processar os alimentos, a barriga é uma usina de emoções. Do medo à paixão, a barriga capta, como nenhuma outra parte do corpo, o porvir, antecipando-o e traduzindo-o por meio de contínuas pulsações a que normalmente damos o nome de “friozinho”. Da ínfima perturbação no humor – próprio e alheio - aos eventos que promovem drástica alteração no eixo de nossas vidas, pondo em desalinho a execução das atividades rotineiras: tudo passa, antes, pela barriga, que, além de espelho d’alma, acaba funcionando também como filtro. Genuína estação de tratamento, beneficia-se da geometria do corpo, fixando-se a uma distância segura do peito e do ventre. Menos erógena que as tradicionais porções implicad...

Hipótese de Einstein

Tinha esse problema que não sabia qual era, nem se podia chamá-lo realmente problema, tampouco solução. Afinal, era possível que não passasse de algo orbitando um planeta que apenas muitas centenas de anos depois um grupo de cientistas reunidos em torno de uma ampla mesa branca decidiria rebaixar. Denominou-o simplesmente “dado”, uma maneira educada e algo limpa de abordar o “estado geral das coisas”, outra expressão a que recorria sempre que não se via suficientemente livre para conferir à realidade a nomenclatura adequada, o que acontecia com uma frequência acima do normal. Um tipo de máquina de Goldberg elevado à enésima potência: eis a situação. Um dado, portanto. Material ou imaterial, concreto ou abstrato – grosso modo, eram perguntas às quais não encontrava solução imediata, de modo que, assumindo tratar-se de um caso aparentemente típico de “ação fantasmagórica à distância”, conceito que vinha de empréstimo da teoria da relatividade geral de Einstein, optou por...