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Mata de transição

Faz tempo procuro uma palavra, pra ser preciso desde a hora em que acordei hoje, umas 10h20. Sei o que deve dizer, os contornos, a intenção, conheço o peso, a forma, o tempo necessário para pronunciá-la devagar, a palavra não é um completo mistério, portanto. Familiar, há quem a utilize com frequência além do normal, é bonita, mesmo vulgar, eu mesmo me satisfaço com a pouca recorrência com que surge em tudo que escrevo, nem rara, nem popular, está ali. Uma palavra assim, significa variação, dubiedade, presença ao mesmo tempo de elementos diferentes, existe na fronteira, no exato limite entre duas coisas há uma área cujas propriedades é guardar características de ambos os lados, zona de alteração, espécie de mata de transição, camada que liga e comunica dois pontos distintos, a ideia geral da palavra é essa. Quase nuance, mas não é nuance, ou é? Nunca pensei que fosse tão difícil, outro dia passei horas com a palavra zunindo ao pé do ouvido, lá e cá, usava-a a p...

A santa marcha

O que nos leva a pensar no heroísmo, em Seya, Daniel, o vingador do futuro, o truculento He-man, Bob, o solitário Logan, uma infinidade de personagens cuja marcha até a superação dos pequenos fracassos é marcada por muito sofrimento, quase abandono do ringue, revisão de princípios, apelo aos amigos, à família, cara no chão, dor, lágrima, o sentimento total e irreversível de que o mundo não foi feito pra gente. Até a chegada do herói sem nome, sereno, violento. Uma jornada e tanto: como Daniel, vindo de outra cidade, igualmente desconhecida, à procura de uma vida tranquila, o que fica pra trás é apenas uma intuição, corolário de violências anteriores. O herói sem nome agride com martelo, faca, o salto da bota de caubói, suja-se inteiramente com o sangue do oponente de rosto difuso, caminha lento, abre a porta do carro, engata a marcha de força e vai embora. Herói sem território, sem família, vítima da frouxidão dos vínculos. Mais um coração atordoado no mundo, barqu...

A nostalgia não é aceita neste DOJO

Daniel-san, o LaRusso, o pupilo maltratado do senhor Miyagi, em três tempos: primeiro, nos anos 1980, quando Daniel era um garoto que dançava dentro das calças e camisas largas vindo de outra cidade. Daniel apanhando dos valentões: na praia, na rua, no estacionamento, uma constante. Depois, já depois de 1990, mas antes dos 2000, Daniel, coração apaixonado por uma loira de sorriso alarmante, toda desejo de aninhar nos braços e peito aquela ave mirrada. Salto: segunda década do novo milênio, 2012, quase 2013, Daniel, ainda magro, ainda apaixonado e meio tonto, é um menino perseverante, corajoso, insubmisso, que luta para não deixar a cidade natal, cede aos apelos da mãe e se muda, um garoto sensível que se interessa por bonsai, apanha e não tem medo de andar nas ruas. Apenas na madrugada de ontem, depois de ver o filme pela sétima ou 34ª vez em minha vida, as três peles de Daniel-san viraram uma só. Me vejo em parte delas: criado em ambiente doméstico, penei basta...

Vestido

O vestido é uma peça vulnerável, disse uma amiga, melhor colocar um short, uma calça, hoje quero beber, quero encontrá-lo no fim da linha, da noite, naquela mesa marcada e pedir uma cerveja, melhor duas, depois uma caipirinha, antes uns pastéis, que não bebo de barriga vazia. O vestido, de fato, pensando bem, considerados os prós e também os contras, subtraídos os riscos, levando-se em conta as possibilidades, medidas as circunstâncias, tendo em vista o propósito, conforme a designação espiritual de cada um, sob pena de parecer ridiculamente insistente, o vestido, reparem, é uma peça essencialmente vulnerável, o vento, a mão, a farpa solta na cadeira, o homem tarado, a criança, a amiga. É bem possível que uma infinidade muito grande – redundante - de pessoas conseguisse erguê-lo facilmente, mas nem todos dançariam ao arrepio.
a mulher é uma construção  com buracos demais  vaza Angélica Freitas  

Passinho

Todos os assuntos, mensalão, Júpiter, a amante de Lula – sim, Rosemary é amante de Lula -, tenho absoluto domínio do fato, as revistas, as edições, Curiosity, a escolha do técnico, a demissão do assessor, a formação da mesa diretora da AL, a ficha limpa, a suja, há uma infinidade de temas em torno dos quais manter uma conversa torna-se atividade fácil, simples, basta começar, basta querer, então, mas não querendo não há assunto que possa render, nada. Digo tudo isso pra disfarçar o real assunto, o real interesse, fiz que driblava pra esquerda, fui pra direita, mas ninguém se mexeu, driblei sozinho, nas cadeiras do auditório a plateia acompanhava desinteressadamente o lance ridículo, direita, esquerda, finalmente direita, performance previsível, lenta, patética, então todo mundo ri, o que logo se converte em gargalhada e depois em choro convulso. Caia, tropece, troque as palavras, enrosque-se na própria sombra – é garantia de riso, diversão, gozo alheio para a eternidade. En...