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E o cabra vai endoidar?

 

Só hoje reparei nessa pérola do cancioneiro nacional cuja letra enumera razões pelas quais o eu lírico desse misto de forró e sertanejo (“E o cabra vai endoidar?”) poderia desabar sob o peso de um “burnout”, mas resolve dar de ombros para os pequenos contratempos da vida contemporânea.

Há, porém, mais caroço no angu desses versos que se tornaram ainda mais conhecidos depois da performance abestalhada do palhaço Tirulipa nas redes sociais umas semanas atrás.

“O comprador quer desconto / o funcionário quer aumento / a ex quer pensão / a atual quer dinheiro / a amante quer joias / e o governo quer imposto”, lista o narrador, que arremata, numa conclusão que soa inevitável diante da escalada cumulativa de compromissos que o pressionam por todos os lados: “E o cabra vai endoidar, é”?.

Decerto que não. Ao menos é o que sugere a música logo na primeira audição, que se segue a uma segunda e depois a uma terceira, menos por interesse na atuação do filho de Tiririca e mais para que fique evidente a ligação mágica entre os termos da sequência: desconto, aumento, pensão, dinheiro, joias e imposto, vocábulos situados no campo semântico das obrigações.

Ora, qualquer comprador, seja de que natureza for (de milho cozido a cama box) exige desconto como parte da transação comercial em que se envolve. É inerente ao jogo, diga-se, assim como a demanda por aumento salarial verbalizada pelo “colaborador”, palavrinha que tenta escamotear o velho par ordenado patrão/empregado.

A negação dessa gramática é uma recusa do próprio sistema produtivo em que o protagonista do enredo musical se insere, o que é bem a cara do capitalista brasileiro, que gosta de estado mínimo, mas adora uma subvenção.

O pedido de ganho nos vencimentos da arraia-miúda, por exemplo, é interpretado como risco de adoecimento mental para esse personagem cuja voz, que nunca é confiável, conduz o relato.

Mas eis aqui o pulo do gato: de quem realmente estamos falando? É a pergunta de um milhão (em emendas desviadas). Presume-se que seja de um indivíduo que se queixa não de uma ou outra dificuldade, mas de todas ao mesmo tempo, sem exceção.

De modo que a soma amarga desses impasses (uma exigência que ele considera tão excessiva quanto a carga tributária do país ou o dinheiro gasto pelo governo com programas sociais) acaba por levá-lo a se autoconceder uma espécie de passe-livre. Para quê?

Para não fazer o que por lei deveria. Ou seja, nem o aumento nem o desconto, tampouco a pensão e o imposto estão assegurados por ele, esse empreendedor sem empresa, ainda que haja obrigação legal de garantir provimento do sustento para filhos menores de ex-cônjuges (um mero detalhe que o herói do poema épico ignora).

Pelo contrário, a tudo isso o exemplar de “piseiro” debochado contra-ataca, não sem uma ponta de malícia cabocla cultivada nas ruas: e o cabra vai endoidar, é?

A resposta imediata é: claro que não, ninguém deve sacrificar seu bem-estar físico e psíquico apenas para se submeter às mesmas normas de convívio válidas para qualquer um.

Entretanto, é o que se lê no subtexto da música, que é também o retrato falado de um certo tipo de brasileiro: o cidadão de bem e pai de família reivindicando seu direito de sonegar impostos e não pagar a pensão da ex sem que se veja nele o criminoso que é realmente.

Afinal, trata-se somente de um sujeito comum, talvez à beira dos 40 anos e jovialmente desmantelado, que não está disposto a enlouquecer ante as atribulações da vida adulta com as quais todos têm de lidar – exceto ele.

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