Pular para o conteúdo principal

De volta ao presente



Tenho nostalgia de quando não estávamos tão encharcados de nostalgia, porejando por todo canto essas referências em excesso, procurando anos idílicos, traçando paralelos com 2016 ou 2020 ou 1980, como se houvesse lá atrás um marco a partir do qual as coisas começaram a dar errado, como parece ter acontecido no Sul do país neste momento.

Digo Sul, e não me refiro apenas à assombrosa e tristemente brasileira história do cachorro, mas a uma série de casos de violências e mortes que sugerem que uma Mordor está se erguendo em algum lugar entre o Rio Grande e Santa Catarina, entre o Paraná e a fronteira, com seus caminhantes brancos andando em direção a nós.

Mas nem sempre foi assim. O Sul elegeu prefeitos e outros políticos democráticos, não era esse mundo invertido repleto de demônios juvenis aterrorizando as praias, uma nuvem pestilenta de meninos crescidos sem conexão com a realidade, desafiando-se em jogos mortais do dia a dia, praguejando na calada da noite e imprecando contra os pobres e mal-vestidos.

Tenho FOMO de quem veio um pouco depois dos 1990 e antes dos 2000, que nasceu no espaço intervalar (que não foi o meu caso) e pode aproveitar o clima de fim de festa sem ter conhecido ainda a distopia tecnológica e o desamparo da vida permanentemente online, mediada por fóruns de extremismo e recheada de missões suicidas.

Uma curiosidade honesta por saber como teria sido se não achássemos que, passado esse tempo, uma existência mais autêntica ficou pra trás, e tudo que se seguiu, ou seja, o nosso presente, é tão falso quanto uma nota de três reais.

Vivemos nessa irrealidade imediata certos de que perdemos o horário do trem. E então nos pomos a procurar os roteiros escondidos na trama da história, conformados em caçar easter eggs, viajantes do tempo sem mundo, náufragos da galáxia porque o cotidiano se saturou e os recursos se esgotaram e só restou a sensação de que o gozo e o prazer eram possíveis apenas em algum lugar esquecido do antes.

O fetiche do passado impregna da comida ao lazer, das séries aos livros, em tudo essa aura domesticada dos reboots e refilmagens de uma narrativa conhecida e segura porque dela já sabemos tanto que não representa risco. As franquias que se sucedem, os clássicos que renascem, os marcos que se atualizam sem perigo.

A vida como feed em rolagem infinita, deslizante. Como os meninos e meninas da caverna, presos do outro lado da montanha-russa, vestidos com essas roupas esquisitas e enfrentando dragões e outras criaturas de fantasia porque soam mais reais que as dificuldades de agora. Toda a simulação com as cores estouradas e o envelhecimento forçado porque não há paciência para a espera, e o desgaste da imagem e a maturidade da experiência consomem esse artigo de luxo, uma matéria-prima cada vez mais rara: o tempo disponível para fruição e desatenção, tempo para o desperdício e o erro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...