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O mar começa aqui

 

“O mar começa aqui”, leio a inscrição enquanto olho pro chão, uma tampa de esgoto que alerta para o que não está ali, uma advertência sem nome ao passante que eventualmente deseje se desfazer de algum pertence, um objeto, uma carteira ou papel rasgado, uma garrafa plástica ou qualquer outra coisa.

De modo que, ao se voltar pra baixo, ele ou ela se depara com a frase: o mar começa aqui, e aqui significa que o esgoto é também mar. O dejeto é carregado para além por esse fluxo e chega ao outro lado, atravessa uma parte da cidade, ganha volume ao encontrar outros veios com matéria orgânica descartada e finalmente atinge o ponto depois do qual o horizonte se abre inteiramente, e o que é resto se dilui na massa salgada.

O mar começa aqui é menos um aviso do que um convite.

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