Pular para o conteúdo principal

Sequências

 

Todo dia os mesmos números, ou talvez sejam números distintos, com uma diferença de apenas um ou dois algarismos, não posso ter certeza. O celular toca, eu atendo, digo oi ou olá ou boa tarde ou bom dia, uma gravação começa e então desliga sozinha.

Bloqueio o número, não quero que volte a ligar, mas outro é discado em algum lugar por uma mão ou programa cujo propósito é esse. Fazer contato com quem não quer mais atender um telefonema ou evitar isso a todo custo.

Mas há sempre um modo de encontrar quem se esconde, a gente nunca está totalmente protegida ou a salvo do que teme ou provoca algum tipo de temor inexplicável.

Essas ligações começam sempre nos dias pares, muito cedo da manhã. Depois seguem pela tarde e entram pela noite. Às vezes apenas números ímpares. Noutras, sequências que intercalam senhas antigas de cartão de crédito ou números primos, divisíveis por dois, múltiplos de três e por aí vai. Padrões, alguns mais evidentes, outros menos escancarados, como esse de ontem.

Me ligou na hora do almoço. Era formado pelos dois últimos números dos dois últimos apartamentos onde morei antes de me mudar de volta pra casa da minha mãe, acrescidos da data de nascimento da minha primeira namorada.

Inicialmente achei estranho, mas, numa iluminação como essas que acontecem nos filmes, em que sequências inteiras se destacam em contraste com um emaranhado de outros números que não representam nada e estão ali apenas para confundir, um todo feito de ruído do qual devemos extrair alguma coisa, suspeitei de que talvez houvesse algum significado.

Um significado também arbitrário, também aleatório e resultado de uma leitura enviesada de elementos numéricos dispostos ao caso e aos quais eu me lançava com certo fervor, uma crendice pessoal acalentada em fogo baixo.

Números são apenas números, nada mais que isso, disse a mim mesmo depois de atender e ouvir do outro lado a voz mecânica feminina disparando um texto previamente gravado e agora encenado nesse falso diálogo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...