Pular para o conteúdo principal

Um ponto

 

Convém esboçar uma ideia de futuro, mas estou farto de tudo que não seja o hoje e o amanhã, no máximo o depois do amanhã, que já considero um estirão muito além do alcance dos dedos e da boca, com os quais vamos buscando sempre o de que mais precisamos.

O ano passou-se como de costume. Sem queima, a contagem da TV demarcando a virada, na sacada de um apartamento alguém soprava um instrumento melodioso e nele esse tipo de música cuja maior serventia é inspirar um estado falsamente reflexivo no qual nos pomos diante do que não sabemos. Uma reza em tudo muito apoucada para o menor desafio.

Depois fomos à rua, andamos à toa, e em tudo na cidade o tempo não se refletia. Era rito sem rito, fogos pipocando de quando em quando, mas, fora isso, nada. Sorrio para essa falta, tenho com ela uma ligação qualquer.

No dia seguinte acordei perto do meio-dia, desorientado e sem muita cabeça para as pilhas de livros na mesa, os lápis, os blocos, os tantos projetos, os compromissos que fui rabiscando, de modo a lembrar de cumprir nas férias os itens dessa lista, do contrário não conseguirei.

Uma ideia extravagante fazer do vazio o ocupado, preencher com tarefas o dia a dia gratuito sem trabalho. Então deixei de lado e me deixei levar, apenas, uma série, uma leitura, um sorvete, sol raramente.

Embora tenha lá minhas ambições para a temporada, é verdade, um ou outro continho mais ordinário, uma reportagem de maior fôlego, uma semente de romance que me parece ora promissora ora uma arrematada idiotice.

Mais um dia, e agora penso que se não anotar tudo o tempo correrá tão depressa que o arrastado das férias há de saltar e saltar, vencendo a resistência dos materiais e impulsionando tudo para o mais adiante.

Por isso decidi escrever e fazer constar que hoje, dia 2, o segundo dia do ano, encostei a ponta porosa da caneta azul no centro da página em branco e lá deixei escapar um ponto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...