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Desaterro (2)

Fui encarregado de contar a história da família, reatar um fio que se perdeu muito tempo atrás com a morte dos meus tios e o desaparecimento de uma tia, a morte da avó, a quem perguntava de onde tínhamos saído, de quem descendíamos, se tínhamos uma raiz, uma ramificação que fosse, um pedaço de chão onde se pôs algo a que se pode chamar de origem. Porque era importante pra mim entender que havia começo.

Mas é difícil recuperar esses vestígios, retraçar essa errância, narrar a deriva. A família é esquiva, dela sei muito pouco, o avô se evadiu quando pode, meteu-se noutro lugar, noutro estado, de lá não se tem sinal de vida ou morte, embora haja mais razões para crer em sua morte do que na vida. Poucos escritos, cartas, álbuns, quase nenhum rastro, fotografias atiradas ao lixo, coleções de cartas perdidas, registros extraviados.

Tudo como se houvesse um esforço deliberado de apagar-se, a família sem retrato na parede, sem patriarca, sem matriarca, um ajuntamento de pessoas cujo elo mais forte, o de sangue, há muito se dissipou e disso não resta nada.

Difícil contar uma história a contragosto de quem a viveu.

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