A mãe tinha um segredo, não que o escondesse, ela simplesmente tinha, como se possui uma gagueira ou um tique do qual não se tem consciência embora desde cedo esteja ali. Era esse tipo de segredo que tinha a mãe, talvez uma história, uma riqueza particular, uma origem duvidosa, uma abdução, uma face monstruosa sob a doçura dos traços passivos, um terceiro braço que lhe havia crescido imperceptível e que mesmo hoje o disfarçasse tão bem que passara incógnito. Mas estava ali, sob a claridade, à mercê de quem a olhasse mais de perto, coisa que eu costumava fazer naqueles dias tumultuosos que antecederam a saída do pai de casa. Eu tinha 14 anos, talvez um pouco mais, e me sentia surpreendentemente feliz quando o portão bateu e dentro ouvimos o silêncio e no meio do silêncio o oco deixado por ele.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
Comentários