Pular para o conteúdo principal

Rever Belchior

Hoje escrevi Belchior.

Tinha abusado. Esquecido a falta, deixado pra lá. Mas pronunciei ainda uma vez Belchior. Disse que tinha saudade, que já se passara um ano, que ainda ouvia suas músicas.

Lembrei de coragem, ausência, susto. Descaminhos, essas dobras  da vida ao fim das quais damos com a cara no muro.

Misturei alhos com bugalhos. Disse Belchior, e quis despejar nele essa raiva. O tempo que estivera longe, nunca mais vê-lo.

Escrevi com ódio, um travo na boca e mãos crispadas. Domingo, a vida em suspenso, digitei numa folha em branco que teria feito em pedaços se tivesse mãos ainda. Mas já não tenho.

Não fui à praia, tampouco andei de bicicleta no trecho de orla que é céu e abismo. Nele caio e levanto.  

Disse mais uma vez Belchior e me arrependo porque já é tarde. Belchior não voltará. Imaginá-lo cantando como Caetano numa noite de sexta. Qual a valia?

Nenhuma. Sonho desfeito. Coisa sem préstimo. Engano.

Apenas lusitanismo amargo que não vem a calhar numa segunda, já por natureza avara quando se trata de um quinhão de alegria qualquer. Invocar o poeta é uma tolice. Vê-lo na praia, ainda um golpe.

Melhor que repouse e esteja bem onde estiver, náufrago feito barco ou trazido à terra em restos nos quais não vemos mais o artista, apenas a silhueta do que foi.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...