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Desejo ii

Digo desejo, e tudo se move num segundo. Afetos parados na porta de repente andam pra lá e pra cá, gostos de saber na boca a distância. Suores acumulados e fluidos contidos, dedos descasados procurando uma casa onde possam revirar baús de carne e pelos quentes que se molham quando tocados.

Digo desejo, e nada se move, tudo em redor se paralisa, como se alguém gritasse no meio da rua num sábado à tarde: incêndio, crime, roubo, assalto. Uma onda elétrica de imobilidade.

Desejo, e a palavra vai sulcando no ar um caminho que leva a outro desejo, como rotas aéreas, boeings que se encontram e não se batem. Bicos que se chocam.

Desejo, e os muros da cidade pintados com a palavra de repente sorriem no anonimato das coisas que acontecem sem ter de acontecer.

Desejo, e nenhuma criança para de saltar no pula-pula, soltas de qualquer perspectiva de sofrimento, passado, presente ou futuro.

Desejo, e me pergunto finalmente se o vendedor de churrasquinho ainda ama a mulher que o auxilia e que pergunta se sou ainda moço, se sou pai, se sei o que acontece quando dobramos a esquina. 

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