Pular para o conteúdo principal

Máquina de pinball

A música alta. Dança rodopiando, pensa em ir até o bar mas fica no dilema: se for agora pode perder a música, e tudo que não quer é perder a música, não essa, esperou a noite inteira que tocasse e ela tocou, então quer simplesmente ficar e curtir, dançar um pouco solto, um pouco preso, afinal não se dança nunca sozinho nem totalmente acompanhado.

A música para, ele resolve comprar mais cerveja, pergunta ao grupo se mais alguém quer e todos dizem sim, abre espaço entre homens que vão passando a mão no seu corpo como um pedágio e chega até o balcão onde pede quatro cervejas. Ele volta. Queria ficar, mas volta.

Outra música da noite começa e o salão agora se esgoela cantando uma versão em forró de um desses sucessos românticos internacionais, é uma espécie de hino da geração.  

Dá goladas na cerveja antes de distribuir, estão todos de olhos fechados cantando para o teto, os dedos das mãos em riste indicando que algo vai acontecer, algo pode acontecer, algo tem de acontecer.

A música termina sem que algo de fato aconteça.

Todos se entreolham e sorriem e novos pares se formam com a chegada de outra pessoa, um círculo se desenha, depois um corredor e agora estamos dançando colados, quatro corpos colados, que se desfazem para se reunirem a outros e depois a mais outros, como pequenas esferas soltas ao acaso do alto de um prédio numa máquina de pinball. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...