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Paisagem

Agora que tudo chega a um ponto de ebulição ótimo, fica a sensação esquisita de que eu não deveria estar aqui, neste momento, sequer assistindo a festa, menos ainda dançando com um dos pares soltos no salão, cada qual intimamente convencido de sua inocência e da culpabilidade do outro.

Eu deveria estar noutro lugar, num planetinha rural, doméstico, como uma versão ampliada do quintal da casa da minha avó, correndo e cortando os pés num caco de vidro e depois espetando a testa na cerca depois de correr atrás de um calango.

E daí a aparecer nas fotos da festa do ABC com um pontinho escuro no meio da testa sobre o qual todos perguntavam, ignorando a marca de batom na minha bochecha que me dava tanto orgulho.

Mas é inadequação, e inadequação é um sentimento que surge mais vezes ao longo de uma vida do que a adequação. Talvez a gente seja resultado da sorte, da fortuna, uma paisagem que se forma à medida que se passa. Não antes nem depois, mas no momento exato que a gente olha: está lá. Antes não estava. E depois se apagará.

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