Pular para o conteúdo principal

Brinquedo

Escrevia entre as palavras. Sobre outras palavras escritas antes. Uma empilhada na outra. Empenhadas nessa pilhagem por tanto tempo, catapultadas para agora.

Palavras rotas, gastas, nem mesmo o velho hábito de pescar um vocábulo interessante no dicionário apenas para usá-lo a gosto numa crônica, gostava de impressionar assim, deitando uma ou outra que ninguém sabia ou se sabia, tinha esquecido.

 Era fã do esquecimento. Porque o esquecimento é um brinquedo. Nós voltamos ao parque onde antes tocava uma música e agora não toca mais nada. É um brinquedo estranho e trabalhoso esse de estar em todos os tempos.

Falava do novo, mas não gostava muito. Queria o básico. A camiseta, a calça, o sapato. O mínimo. O nada. Não a roupa nova, tampouco variedade. Mais do mesmo dito sempre de modo a parecer diferente. Tudo a mesma coisa. Até o fim dos tempos.

Nada que sobrasse ou fosse peso além do que havia prometido a si mesmo carregar durante o tempo que julgasse suportável.

Carregar.

Nada de culpa. Eram as mesmas palavras. As de sempre. Gastas agora por razões diferentes das de antes, mas mesmo assim palavras velhas, usadas, com cheiro e marca.

Lembra do cheiro que tinha logo depois? Da marca?

Lembra?

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Urikianas”

De memória, lembro do bar e o do rosto miúdo atrás dos olhos apertados, reluzentes, afogueados. Que ano era aquele? Tinha pressa, queria conversar, mas já estava de partida. Durante todo esse tempo, tive essa impressão de que era dessas pessoas que falavam enquanto se despediam, instaurando nesse movimento uma presença-ausência precocemente exibida. Parte de si ia embora, outra estava apenas de chegada, num desencontro de corpos e de tempos. A quem me perguntasse, dizia: estou esperando o livro que Urik escreve, tenho certeza de que guarda algo, de que é o portador de um segredo muito bem escrito, de que o que se lê é apenas ensaio, um jogo que se arma nessa vacância de espírito, exercícios de prazer. Então deu-se o sumiço. Soube que viajara, que estava longe, que exorbitara as fronteiras, que se desvanecera. Onde agora? Minas seria um paradeiro possível, no Rio fora visto entre árvores, em São Paulo uma fantasmagoria, esse perfil sem contorno que às vezes assumia mesmo em Fortaleza,...