Pular para o conteúdo principal

Karaokê



Jamais havia parado cinco minutos pra observar atentamente o ecossistema de um karaokê. O movimento das pessoas, o empenho que dedicam a cada interpretação, a seriedade estampada nos rostos, os pedidos de socorro às mesas vizinhas nas partes que requerem um gogó aprumado, a predileção por um cânone com mais apelo popular, a satisfação em se diferenciar cantando à capela alguma música obscura de um intérprete romeno naturalizado italiano, a sequência de hits que um mesmo cantor vai emplacando por rodada, o profissionalismo do garçom que segue anotando pedidos e enfileirando números num caderninho pautado ainda quando tudo a sua volta parece desmoronar, o clima de ritual que paira sobre todos.

Num karaokê, ninguém se envergonha de mostrar sua verdadeira natureza (ou, quando se envergonha, já é tarde demais): o repertório de novela, o brega francês, todas as maravilhas da Década Romântica Explosiva, os sucessos de Patrícia Marx, Chitãozinho & Xororó, Raimundos e Furacão 2000, Renato Russo, Raul Seixas e Lulu Santos, Skank e Reginaldo Rossi, os clássicos do sertanejo, Vanessa da Mata e Elvis Presley, Aviões do Forró e Backstreet Boys, Os Pholhas e Fernando Mendes, Mc Marcinho e The Doors. 

Mais do que na igreja, escola e família, num karaokê se cultivam sentimentos verdadeiros. Ninguém está ali para fingir. Todos se aceitam como são. Há muita entrega genuína, respeito, euforia, ansiedade à medida que a vez de cantar se aproxima, resiliência, capacidade de ir adiante mesmo que a opção por Fagner tenha provocado mais contrariedade que satisfação e seja possível distinguir uma vaia tímida entre os urros de aprovação da plateia. 

Se me pedissem para sintetizar o karaokê numa palavra, não hesitaria em dizer: irmandade. É especialmente digna de nota a reverência com que nos dirigimos a essa pessoa que, entre milhares de canções à disposição num livro ensebado de tanto manuseio, elege uma e, investido de suprema humildade, decide interpretá-la, no mais das vezes bêbada, eventualmente atropelando as sílabas, acelerando e desacelerando na hora errada - nunca desistindo. 

Mas nem só de bons sentimentos vivem os karaokês. Assim como no trabalho, nos esportes ou nas artes, nos bares também há muita disputa silenciosa. Nessas horas, as curtidas são os aplausos e os compartilhamentos, o coro que se soma para cantar junto (quanto maior, mais apaziguado fica o nosso espírito e, por consequência, o ego). Naturalmente, esse capital está em disputa a cada música interpretada, e os meios para conquistá-lo variam conforme o perfil do cantor. Afinal, a vontade de superar o adversário é como um rio de águas turvas que corre muitos metros abaixo desse sentimento de mútua camaradagem. 

Poucos admitem a mera existência desse lado negro dos karaokês. Alimentá-lo, então, nem pensar. Entretanto, ele está lá, vivo e forte, ligando pontos diferentes do bar numa noite quente de sexta-feira. Como um corrente elétrica, aviva a competição, acirra os ânimos e faz esquecer a bolinha de peixe. E até isso é muito massa. 

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...