Pular para o conteúdo principal

Multiusabilidade e personas





Há um nexo possível entre a multiusabilidade, que é a funcionalidade levada ao extremo, e a grande variedade de personas adotadas nas redes sociais. Com a multiplicação dos mecanismos de interação, diversificam-se também as máscaras sociais, ou seja, para cada ato cotidiano de sociabilidade, dispomos de uma persona diferente, que implica também uma função diferente.

Versões de si mesmo espalhadas por cada canto da vida, transcorra ela nos ambientes virtuais ou não, podem agora ser encontradas em doses fartas. Quando menos suspeitamos, está ali, diante da gente, conversando e interagindo e afirmando e fazendo coisas que depois de algum tempo terão a incrível capacidade de nos surpreender.  

Tão antigo quanto a própria humanidade, o desafio de ser realmente quem você talvez constitua algo que exorbite nossas faculdades mais básicas, como a inteligência e a capacidade de abstração. É uma tarefa para a qual simplesmente talvez não estejamos habilitados.  

No fim das contas, as muitas situações cotidianas, domésticas ou não, exigem uma persona. Grupos de pessoas diferentes requerem personas diferentes. Mecanismos de interação diferentes da mesma forma.

Tal como os espaços híbridos, os carros flex, as escrivaninhas que também são mesa e sofá, os objetos com múltiplas funcionalidades, as lojas com vocações fragmentadas, os livros que são discos, os jogos que são livros, as casas que são escritórios – atendemos a demandas distintas acessando um baú quase inesgotável de personas.

É o conceito de multiusabilidade aplicado à esfera do eu. Para cada âmbito de interação, um euzinho singular e único dá as caras, seja para agradar, seja para desaprovar, seja meramente para anuir. 

Bergman capta essa dificuldade em um filme de 1966 chamado exatamente Persona: "O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é". 

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...