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TEFLON ASSASSINO


A espuma laranja da panela do macarrão, o novo jogo de copos, o pano de coar rasgado, a torneira de giro emperrado.

Na vida doméstica, todas as torneiras deveriam ser hidráulicas. Como a direção hidráulica.

É feriado, faz um sol danado, é o mesmo sol que se diverte queimando todo mundo à sombra.

Mais um patamar do condomínio foi erguido da noite para o dia.

Disseram que a imobiliária vendeu todos os apartamentos em 16 horas, um feito notável.

Cada imóvel custaria 800 mil reais.

São duas famílias por andar, o que, pelos padrões atuais, significa dizer quatro filhos, quatro carros, umas seis televisões e muitos computadores.

Ligaram do banco outro dia. Em seguida, ligaram da locadora. Foram dispensados com muxoxos.

A voz, um fiozinho enleado. Sugere carência energética. Trata-se da atávica tendência a comunicar nesse idioma miúdo.

“Falar pra dentro.” É assim que se referem, irritados, fulano é legal, mas fala tão pra dentro que dá nos nervos. Falar pra dentro não é ser preguiçoso, é falar pra dentro.

Falar pra dentro é diferente de falar sozinho? Falar pra dentro é falar vizinhando o arrependimento? Arrependimento é hábito?

É também quando a fala sai prematura, antes da hora. É, ocasionalmente, uma maneira de sublinhar inexistência.

Essa panela de macarrão está soltando teflon, pensa e canta ao mesmo tempo. É uma música antiga, de quando era adolescente, nesse sentido do IBGE.

Receia que, acumulado no organismo, o teflon provoque morte lenta, irreversível.

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