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Pensar é ir embora

Antes mesmo de entrar no bar, sua cabecinha distraída rodava um filme que, na prática, só começaria pra valer dali a algumas horas: nesse filme, ela se despedia de todos, dos amigos e dos recém-conhecidos, encolhia-se inteira pra atravessar um corredor espremido entre duas mesas bastante alegres, curvava o corpo para dar beijinhos nos mais queridos e acenava sem muito entusiasmo para colegas distantes. Tudo isso ela planejava enquanto punha os pés metidos em Melissinhas vermelhas no assoalho maltratado do bar da moda. Chegava, mas queria ir embora. Só que disfarçava legal.

Pra ser bem sincera, não gostava do bar da moda, não suportava os pés sujos, uns tais hypezinhos mas ainda assim da moda, não curtia beber sozinha em casa e, porque convinha manter-se perto dos outros para não se perder tanto, se impunha uma rotina social que incluía: 1. dançar, 2. ir ao cinema e 3. ir a festas com amigos. Dos três, cinema e amigos eram ok, amava as duas coisas, mais os amigos que o cinema, claro, e se os dois estivessem juntos era o céu. Dançar só dançava quando estava bebíssima e não sentia as próprias pernas flutuando. Aí ela aprontava.

E mesmo nessas horas jamais deixava de pensar: bom mesmo era estar em casa, com meu gato e uma garrafa de café.

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