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Domingo

Quando telefonou ficou surpreso ao ouvir gritos de crianças do outro lado, berros gasguitos fulminando seus ouvidos, e logo perguntou do que se tratava, ela respondeu que ficara responsável pelo futebol de sabão, um dos mais procurados no parque naquele domingo de sol agradável, ele pensou enquanto acendia o último cigarro que talvez fosse melhor ler o jornal no parque, podia caminhar, podia parar e sentar, podia matar formigas e investigar nós nos troncos das árvores, podia perder-se varrendo pensamentos acumulados ao longo da semana, depositados em camadas que não faziam muito sentido. Mas preferiu ficar em casa, ver tudo na internet e deixar o tempo passar a solto, sem crianças, sem verde, sem vento, apenas o som do rádio do vizinho tocando Zezé Di Camargo e Luciano bem alto, os calangos no muro mexendo-se de tempos em tempos e, no topo do edifício ao lado, empoleirado na antena de TV, um gavião dando bicadas em alguma coisa.

Foi assim o domingo, até que ela voltou.

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