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ELa tomou o quarto, a sala, a cozinha


Ainda, ainda. Sobrevivendo.

Depois da cortina de fumaça que invadiu o quarto há dois domingos, acordo sempre ressabiado, temendo ser definitivamente engolfado pelo negrume que vem do quintal das velhinhas. É uma sensação esquisita essa de ir dormir sem saber ao certo se no dia seguinte você vai acordar bem, deitado na cama ou na rede, ou dando voltas e voltas no centro gravitacional de alguma galáxia macabra.

O fato é que ninguém sabe explicar direito do que se tratava, se restos de animais mortos ou pedaços de madeira, se pneus velhos ou vestidos considerados sem préstimo pelas idosas. De todo modo, fico intrigado com a durabilidade do efeito. Sempre que chego em casa, é como se tivessem acabado de atear fogo ao cesto de roupas sujas. Minhas camisas têm agora esse segundo ou terceiro odor: fumaça. Além dele, o cheiro de suor e fuligem da rua.

Bom, era isso. Recado dado. Tenho menos de três semanas para escrever dois capítulos de uma monografia que, se não tem atrapalhado meu sono, é só porque nada no mundo consegue atrapalhar meu sono. Menos de três semanas para escrever algo em torno de quarenta mil caracteres. Acho que mais, não sei direito.

Assim, podem me dispensar de festas, aniversários, casamentos, saídas no fim de semana. Só tenho ido a igrejas ultimamente – pedir por meus pecados e rezar para que a banca escolhida para defesa tenha algum dó de mim.

Deus, se eles não sabem o que fazem, eu garanto: também não sei.

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