Pular para o conteúdo principal

De modo que...


Nem sempre o domingo é engraçado. Quase nunca é. Pode ser cansativo, exaustivo mesmo, mas jamais engraçado. Hoje não seria diferente. Principalmente quando:

1. Você acorda, prepara café, toma banho, veste-se. Bebe o café, come alguns biscoitos. Depois, lembra que, um dia antes, enquanto olhava o interior da garrafa como se procurasse ali respostas para todas as perguntas que açoitam a raça humana - existe água na Lua? Por que o Coiote nunca conseguiu capturar o Papa Léguas? -, ela havia adivinhado o manual. Molhado. Aos pedaços. Ainda cheirando a café.

2. Enquanto se prepara para sair, caminhar um pouco, ouvir os barulhos de uma rua sem movimento num domingo de novembro, um sexto sentido enferrujado vomita a informação: você não está só. No topo do edifício vizinho, um urubu sorri. Sacode levemente as asas. Venta bastante. De modo que ele balança pra lá e pra cá. Penso que vai cair. Não cai. Vou embora. O urubu permanece imóvel.

Sendo assim, melhor dar tudo por encerrado. Voltar pra casa. Checar as fechaduras. Conferir se a mangueira do gás está realmente em bom estado. Ver atrás das cortinas – que cortinas? Enfim: desassombrar o ambiente invocando a palavra do Criador.

Ora, ora, ele dirá surpreso com a deferência.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Urikianas”

De memória, lembro do bar e o do rosto miúdo atrás dos olhos apertados, reluzentes, afogueados. Que ano era aquele? Tinha pressa, queria conversar, mas já estava de partida. Durante todo esse tempo, tive essa impressão de que era dessas pessoas que falavam enquanto se despediam, instaurando nesse movimento uma presença-ausência precocemente exibida. Parte de si ia embora, outra estava apenas de chegada, num desencontro de corpos e de tempos. A quem me perguntasse, dizia: estou esperando o livro que Urik escreve, tenho certeza de que guarda algo, de que é o portador de um segredo muito bem escrito, de que o que se lê é apenas ensaio, um jogo que se arma nessa vacância de espírito, exercícios de prazer. Então deu-se o sumiço. Soube que viajara, que estava longe, que exorbitara as fronteiras, que se desvanecera. Onde agora? Minas seria um paradeiro possível, no Rio fora visto entre árvores, em São Paulo uma fantasmagoria, esse perfil sem contorno que às vezes assumia mesmo em Fortaleza,...