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NOVA FOME

Sentia fome. Não sabia de onde vinha, por que sentia. Apenas tinha fome. Uma fome original. Comida. Nada a ver com a antropofagia, cultura subdesenvolvida. Era fome mesmo. Não podia escrever, não podia ler, não podia ouvir música. Não podia nada. Se lhe pedissem “Escreva um resumo da história romana” ou “Calcule a raiz quadrada de 64”, nada.

Era fome. Uma coisa ancestral. Nada a ver com Glauber Rocha, Ferreira Gullar, Mário de Andrade, Caetano Veloso. Resistência, política, guerra fria, brigadas vermelhas, exércitos zapatistas, forças armadas, comando de caça ao que quer que fosse, revolta, motim. A única rebelião que conhecia era a que vinha do estômago.

Apenas fome. Doendo na barriga. Das 14 às 17 horas, na hora da aula, não conseguia aprender nada. Das 17 às 20 horas, no cursinho de inglês, nada novamente. Das 20 às 22 horas, enquanto voltava pra casa, nada. Em casa, no quarto, na sala, absolutamente. De frente para a televisão. De frente para o PC. Nada. Nada até as 23 horas.

Quando comia qualquer coisa. Na geladeira, comia qualquer coisa. Pão e peito de peru desfiado. Nutella. Bacon e salada. Suco de caixa, iogurte. Fartava-se comendo tudo que não pudera comer de manhã. Comia. Era a dieta.

Comia qualquer coisa sempre.

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