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Datacentrificação

 

Fico preocupado com essa tendência sem saber ao certo se estou do lado correto da história ou se sou apenas um atrasado no sentido lato do termo, alguém que sempre chega tarde e cuja capacidade de compreensão está aquém das possibilidades que se abrem no horizonte.

Seria isso, então, sou uma dessas mentalidades negativas para as quais todo o progresso tecnológico é uma notícia fatalmente ruim, seja ele qual for?

Olho para os lados e me vejo acuado ante a datacentrificação da província, o avanço a passo largo dos gabinetes mastodônticos e o escoamento da água em dutos cada vez maiores rumo ao Pecém, esse coração pulsante da nova geopolítica cearense, a Mordor para os povos tradicionais do estado, o Vale do Silício desse nosso ímpeto meio “bruzundanga” de superar dificuldades estruturais apostando na Mega Sena da Virada.

De repente, distritos e cidades substituídos por construtos semelhantes a gaiolas semiprontas erguidas à beira mar como trailers de hot dog mantidos por Elon Musk, dependentes de refrigeração numa escala jamais vista, aportando aos milhares no litoral mais conectado do mundo, uma esquina de onde partem cabos submarinos em todas as direções com pressa de chegarem a seu destino.

Eis o Ceará: um grande T, uma tomada tamanho família onde estão plugadas as fiações que aproveitam a posição geográfica privilegiada do estado para encurtar distâncias e transportar especiarias a seus destinos sem tanto ruído, pagando pouco e deixando menos ainda. Já era assim no século XVIII, continua do mesmo jeito agora.

Um entreposto sem interesse, como sempre, lugar de passagem e apenas disso, mas agora de dados. Não mais de mercadorias e outras quinquilharias, mas de informações transmitidas por baixo d’água, indo de um canto a outro, em rotas de navegação como as de antigamente.

Tento entender esse novo momento, sabe? O renascimento cultural-tecnológico local, o Siará como uma Florença cabocla em pleno momento de explosão das luzes, mas custo, admito, a compreender os ganhos e as perdas desse processo, que vem sendo embalado como uma chance de ouro de virar a página do subdesenvolvimento sem que haja clareza do preço que se paga por isso.

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