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Delírios de pequeneza

 

Minha palavra do ano é “prompt”. Tenho dificuldades para entendê-la, me recuso a abrir uma aba do navegador (como fiz agorinha), digitar letra por letra e apreender a extensão do uso de um termo não apenas feio, mas impalpável e seco.

Não quero aceitar que os usuários tenham de bom grado admitido seu emprego largo no dia a dia, sem cerimônia, sem atinar para o estrago que uma única construção sintagmática desarmônica opera na vida de toda uma aldeia já desgraciosa e descalça.

Sou um negacionista do prompt, é verdade. Um ludista da língua que não tolera que o vocábulo tenha se estabelecido tão facilmente entre nós. Sem encontrar resistência, como o herói romântico colonizador alencarino, aclimatou-se à sazonalidade matuta, já tropicalizado e perfeitamente incorporado ao cotidiano da última flor do lácio.

Bodejado nas esquinas do Benfica e sussurrado com reverência nas borracharias da José Bastos, figurando como pingente luzidio no fraseado do caixa do atacadão de Messejana e nas sentenças judiciosas da vendedora de um comércio no Conjunto Ceará.

Que prompt tenha insidiosamente se infiltrado e progressivamente se assentado em nosso mundo caboclo num dia para se tornar essa coqueluche no outro: eis a medida do nosso fracasso em 2025.

Uma derrota linguístico-nacional da qual nem a taça do hexa ano que vem poderá nos redimir como povo. Nem a prisão de todos os generais, nem o desaterramento da orla da capital, nem o “downgrade” dos superprédios da Beira Mar, nem a importação de neve integralmente orgânica para o Natal de Luz da Praça do Ferreira, nem o “retrofit” da Bezerra de Menezes, nem a devolução da estátua da Iracema Guardiã para que sua silhueta recupere os traços bojudos, nem a volta de Ceará e Fortaleza para a Série A.

Exagero? Talvez. Mas agora é tarde, Inês é morta, a vaca foi pro brejo, o leite está derramado, a porca torceu o rabo e por aí vai. Com isso quero somente confessar minha derrota como cronista dos bons e dos maus costumes na terrinha que se habituou mui precocemente a tratar como trivialidade que o público passasse ao privado e vice-versa, nesse intercâmbio patri e matrimonialista.

A onipresença do “prompt” me faz lembrar que este foi também o ano dos data centers festejados como Hilux com bancos de couro desfilando pela periferia naquele distante 2006, quando as facções eram ainda fantasia no laboratório do banditismo e os governantes cearenses combatiam a criminalidade brejeira com fardamento desenhado por Lino Villaventura.

Vivia-se então na província essa espécie de renascimento matuto, uma “belle époque” com delírios grandiloquentes. Os impasses se resolviam na calada da noite e os ingressos dos grandes shows musicais se sorteavam às mancheias nas redes sociais pelo próprio manda-chuva, nessa mistura de gestão técnica com mundanismo rebaixado.

Eram tempos de inocência, afinal, como são os de agora, mas de uma inocência já marinada no cálculo e convicta da pureza da resposta dos “padrinhos”, cujos sonhos estão sempre prenhes de projetos de continuidade, de partição entre os seus e de concessão aos amigos e mais chegados.

Mas me desvio da busca: prompt. Tenho dó de arrancá-la à força da garganta dos cearenses, que certamente dispõem de palavrinha mais afeita a nosso jeito meio lá, meio cá de falar, num arrastado semântico e sonoro facilmente distinguível em qualquer parte do planeta, tal como a vaia.

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