“Talvez tenha sido um erro escrever este livro”, admite a narradora já no terço final de “Argonautas” (2017), de Maggie Nelson, uma obra comovente na qual os processos de mudança constituem o eixo em torno do qual a história avança.
Digo avança, mas há mais idas e vindas do que propriamente progressão, já que se trata menos de percorrer caminhos e mais de entender os modos pelos quais alguém vai se tornando o que é – ou o que deseja ser. Nelson combina, assim, teoria e crítica, ensaio pessoal e autobiografia, citações e colagens, numa variação de registros que nunca parece esnobismo ou acumulação pedante.
O resultado é uma obra sem gênero – um romance, uma autoteoria, uma viagem (daí o termo “argo”), defini-la importa bem pouco. Se não fosse cafona, diria que é um livro sobre amor – filial, mas também familial.
Uma obra que investiga os limites da formação e da transformação seria outra aposta. Mais uma: “Argonautas” é sobre a possibilidade de não se permitir assimilar pelos fluxos de mercado afetivo. Mas suspeito que ao cabo não se trate de nada disso.
Os jogos de citação às margens das páginas podem fazer parecer que a interlocução e a intertextualidade estão ali para atrapalhar mais que ajudar, mas é justo o contrário. As capturas de trechos de autores com os quais Nelson dialoga vão se sucedendo sem soarem como intromissão, desfilando como convidados numa festa para a qual ela convidou cada um dos leitores.
Ao menos foi assim que me senti lendo sobre a vida da autora, ou seja, como se não estivesse de fato diante de um desses livros de autoficção nos quais os escritores encenam suas peripécias e performam avatares que se ajustam às demandas do público.
Nelson, contudo, logra estabelecer um diálogo talvez porque dispense os mecanismos mais artificiosos, dando-se a ver com mais crueza e entrega do que se costuma ver e ouvir entre seus pares.
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