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A nova linguagem

 

Tenho saudades de quando a gente separava o verbo do predicado com uma vírgula exasperante, que caía na frase como um cisco no olho, ardia na pele como vinagre na ferida e embrulhava o estômago como cheiro de murici. A gente era feliz e não sabia.

Afinal, nada era mais humano do que o erro grosseiro, a falta da crase ou a crase mal empregada, o “porquê” junto que devia estar separado ou separado quando junto, com acento quando a norma culta previa sem e por aí vai.

Enfim, toda sorte de anglicismo ou barbarismo ou qualquer atropelo de escrita que, embora condenado por professores de português, revelava-se humano, demasiadamente humano, nada mais que humano.

E hoje? Hoje é diferente, a linguagem cheia de uns automatismos canhestros, uma hipercorreção, um cerebralismo aparvalhado, palavras e construções de sintaxe estranha que não parecem ter saído da cabeça de ninguém, mas da mente coletiva de uma IA cuja matéria-prima é ainda o que os humanos escreveram, mas logo será o que as próprias IAs produziram.

E então terá chegado o inferno de vez, isto é, o tempo em que as máquinas estiverem copiando as máquinas, e tudo isso parecerá o novo padrão de escrita e pensamento, empurrando para a margem o jeito errado de escrever das pessoas.

Mas não o jeito errado de fato errado, esse que era gramaticalmente considerado errado tempos atrás por um conjunto de regras. Mas o jeito errado certo, pelo qual todos se habituaram a ler e a escrever.

É para isso que estamos caminhando sorridentes como vacas no abatedouro.

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