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Produção do espontâneo

 

Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios de futebol talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente.

Estão ali, capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato. Aquele momento é postiço, efeito de cálculos, moldado para parecer com o real, mesmo não o sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil.

As poses, os sorrisos, a aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é constitutivo de um cotidiano que resiste a qualquer encenação.

Os rostos congelados em expressões de absoluta concentração e graça, as linhas da testa mais serenas e as maçãs docemente erguidas, os olhares de uma compenetração quase fora de moda.

Mais importante: ninguém fotografado com a vista fixada no aparelho celular, todas e todos estão mirando uma linha qualquer no seu horizonte de expectativas, as sobrancelhas como duas lebres decalcadas em pleno salto.

A vida em estado puro, num domingo ou sábado, cercado ou sozinho, num espaço de convivência como esse campo de futebol onde as câmeras de transmissão das partidas já se habituaram a caçar beldades desprevenidas, revelando ao mundo o poder da beleza em estado de natureza.

Mas então é aí que a natureza passa a se confundir com a técnica, a cultura com a coisa bruta, o espontâneo com a performance. É o tempo, dirão, e contra o tempo nada há que se fazer, apenas aceitar.

Saber que essa mágica está agora ao alcance de todos, que cada um, inclusive eu mesmo, pode manufaturar sua distração pessoal e intransferível, que pode criar para si um avatar mais sociável e público, isso é realmente uma novidade, não sei se boa ou ruim.

Por enquanto, trata-se apenas da fotografia, que é resultado de uma IA alimentada com dados que gentilmente admitimos transferir para as megaempresas de tecnologia em troca de usar essas traquitanas um tanto.

Mas depois será mais que isso.

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