Pular para o conteúdo principal

Produção do espontâneo

 

Estou encantado com essa “trend” dos flagrantes de famosos em arquibancadas de estádios de futebol talvez nunca antes visitados, e isso é apenas parte da fascinação. Porque o interessante mesmo é essa simulação do espontâneo, a produção do acaso, a fabricação do contingente.

Estão ali, capturados num instante que não é o seu, porque não corresponde ao momento de fato. Aquele momento é postiço, efeito de cálculos, moldado para parecer com o real, mesmo não o sendo. E talvez a graça seja essa, isto é, o real é dispensável, defasado e inútil.

As poses, os sorrisos, a aparência despreocupada e esse apelo desconcertante que há no aleatório, naquilo que se deixa captar sem que haja aviso antes, que é constitutivo de um cotidiano que resiste a qualquer encenação.

Os rostos congelados em expressões de absoluta concentração e graça, as linhas da testa mais serenas e as maçãs docemente erguidas, os olhares de uma compenetração quase fora de moda.

Mais importante: ninguém fotografado com a vista fixada no aparelho celular, todas e todos estão mirando uma linha qualquer no seu horizonte de expectativas, as sobrancelhas como duas lebres decalcadas em pleno salto.

A vida em estado puro, num domingo ou sábado, cercado ou sozinho, num espaço de convivência como esse campo de futebol onde as câmeras de transmissão das partidas já se habituaram a caçar beldades desprevenidas, revelando ao mundo o poder da beleza em estado de natureza.

Mas então é aí que a natureza passa a se confundir com a técnica, a cultura com a coisa bruta, o espontâneo com a performance. É o tempo, dirão, e contra o tempo nada há que se fazer, apenas aceitar.

Saber que essa mágica está agora ao alcance de todos, que cada um, inclusive eu mesmo, pode manufaturar sua distração pessoal e intransferível, que pode criar para si um avatar mais sociável e público, isso é realmente uma novidade, não sei se boa ou ruim.

Por enquanto, trata-se apenas da fotografia, que é resultado de uma IA alimentada com dados que gentilmente admitimos transferir para as megaempresas de tecnologia em troca de usar essas traquitanas um tanto.

Mas depois será mais que isso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...