Entre a súplica do torcedor que sonha com Neymar na Copa e vídeos de patriotas bebendo detergente, tentei me refugiar em algum conteúdo mais leve enquanto rolava a barra logo cedo, depois do café da manhã e antes de começar o trabalho, mas acabei caindo na euforia da série da moda.
Mesmerizado pelas razões erradas, logo percebi que era outra polêmica. Como diz o ditado, dos males, o menor, mas mesmo o mal menor atualmente tem sido um fardo difícil de suportar, ainda que do outro lado haja o apelo desconcertante de Sydney Sweeney e sua genética trumpista e anti-imigratória.
Ou era isso ou a polarização do Ypê. Fiquei com a controvérsia nacional, um exemplo cristalino de que a divisão entre “azuis” e “vermelhos” não está apenas no OnlyFans ou no Tribunal Superior do Trabalho, como supõe o magistrado de ganhos mensais obscenos e régua moral pedestre.
A dualidade política já se espalhou para cozinhas, geladeiras e banheiros de todos os lares do país. Do chocolate ao papel higiênico, passando pela sandália de dedo até chegar aos materiais de limpeza, os artigos domésticos se converteram em itens de uma babel eleitoral em tempos de luta encarniçada.
Nas prateleiras dos supermercados, por exemplo, além dos preços, da qualidade, da validade e do colorido dos rótulos, convém observar sobretudo o engajamento das marcas nas justas de 2018 e 2022.
Ora, não é exagero. Tal ou qual produto calha de não ser apenas o que é, ou seja, não se resume a sua funcionalidade, de modo que é muito comum hoje um enxaguante bucal fascista, um condicionador antidemocrático e um fio dental negacionista, cuja descrença põe em dúvida a sua própria capacidade de higienização.
Noutra ponta do espectro, é fácil encontrar em qualquer boa casa do ramo um iogurte progressista, um sabonete republicano e um cotonete desconstruído, um dos mais procurados nas gôndolas por membros da chamada esquerda “chão de taco” (sucedânea da esquerda “caviar”), tanto que seu custo não resistiu ao ataque de especulação, quadruplicando nas últimas semanas.
E não se trata apenas de comércio varejista ou coisa que o valha, mas de futebol também, como mostram os pedidos insistentes dos fãs para que Neymar se deixe gravar sorvendo uma garrafa de alvejante como se fosse uísque. O craque do Santos, porém, é apenas a ponta desse iceberg paroxístico no qual as antinomias ideológicas chegaram a extremos de contágio perigoso, saindo do universo antropocêntrico para o mundo inanimado, chegando às cavernas onde se reproduz o novo macho.
A gota d’água foi o telecurso 2000 que propõe ensinar o homem a se tornar homem ao confinar uma quantidade superlativa de homens num ambiente fechado por um período indeterminado, num evento cujo acesso é permitido apenas para homens.
Simbologias fálicas por excelência, não se sabe ainda como a forja e o farol se comportam no emaranhado de testosterona presente nesse processo de autodescoberta tátil e espiritual das novas masculinidades no ambiente de uma autoimposta privação de contato com o sagrado feminino.
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