O que entre nós significa a convocação de um jogador de futebol que acaba assumindo ares de defesa de algo mais amplo e duradouro que não apenas a obtenção de um título para a seleção masculina desse esporte?
Um “sebastianismo” em cor local, ou seja, uma crença no retorno miraculoso do mito mediante o qual se vencerá a guerra, tal como o rei português cujo desaparecimento produziu essa fantasia ainda no século XVI.
A falta e o vazio, o despreparo e a boçalidade, nada disso é bastante para aplacar a convicção em que a menção à figura régia é suficiente para alçar a nação a uma vitória esplendorosa ao final do percurso montanha acima.
Mesmo o corpo inábil para a prática futebolística não alimenta qualquer desconfiança, pelo contrário, opera sob uma chave de pensamento mágico segundo a qual o brasileiro estará pronto quando quiser, e talvez ele queira, depende de seus esforços e empenho.
Basta querer que Neymar se mostrará o grande jogador que se anuncia desde sua meninice, não apenas grande, mas o maior entre os de sua geração e os de qualquer outra, desde que se esqueçam de Messi e Cristiano Ronaldo e outros havidos e futuros. É o maior entre os que sobrarem.
Eis Neymar entre os listados para a Copa do Mundo, o vigésimo quinto ou vigésimo sexto cujo nome foi pronunciado sob aplausos como um diretor em Cannes, já nem lembro. Porque desconheço o escrete e deles sei apenas que insistiram infantilmente para que o coleguinha de profissão fosse chamado.
E aí se seguiu essa comemoração simulada, o teatral do gesto do atleta malquisto (mas não como eram Edmundo ou Renato Gaúcho, destemperados e carismáticos), o choro calculado e o alívio generalizado, dentro e fora da CBF.
As propagandas desde antes pré-produzidas finalmente veiculadas, o cenário erguido, o falso da encenação estragando o interesse do público e fazendo encerrar toda a suspensão da descrença no seu show.
Foi o que restou do antigo Neymar, aquele que seria o que acabou não sendo? A gestão familiar da marca, administrada com inteligência para maximizar seus ganhos, catapultando-os a outro patamar agora com a participação no torneio como ato final da carreira em lenta deterioração.
Uma derradeira chance para o “menino Ney”, o Peter Pan da zoeira, o exemplar mais mal-acabado do futebol moleque – ou seria do moleque-futebol?
Visto assim, o convite logo se converte noutra coisa: uma capitulação. Mostra que o técnico Ancelotti se acomodou mais rapidamente do que se imaginava ao “jeitinho brasileiro”, fingindo ceder aos apelos de parte da torcida e à pressão do maquinário por trás da imagem do atleta.
“Café com leite”, Neymar vai aos Estados Unidos como alívio ante a exigência de performance à altura dos demais times. Sua presença é uma desculpa antecipada e a garantia de que, para 2030, quem sabe haja um Brasil para jogar.
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