Pular para o conteúdo principal

A face oculta

 

Estive horas na frente da TV acompanhando os movimentos de uma sonda que se deslocava lenta e imperceptivelmente através do espaço, contornando a órbita lunar como fazemos quando vemos um acidente na estrada, num misto de admiração e temor. Até que tudo se apagou.

A muitos quilômetros de distância da Orion, me vi apalermado com essa proeza de tecnologia e engenho. Estava embasbacado em face do que representava aquele hiato de 40 minutos durante o qual os tripulantes, entre eles uma mulher, ficariam sem comunicação, sem notícias sobre guerras, sem qualquer som produzido além do das próprias palavras e pensamentos repetitivos.

Essa cena dramática começou a se borrar, no entanto, quando a transmissão cortou para o que parecia a base de lançamento na Terra, onde um grupo de pesquisadores e técnicos se mostrava apreensivo, exatamente como nos tantos filmes de ficção que heroicizam os feitos norte-americanos ao transformar cada pormenor em atos de superação das limitações do gênero humano.

Quer dizer, ali estávamos mais uma vez grudados na televisão (eu estava), mais ou menos como o mundo havia feito em 1969, crendo piamente que se tratava de um grande salto para a humanidade e essa lenga-lenga toda que tinham contado como distração para crianças e adultos décadas atrás.

Nesse instante de apagão, enquanto os astronautas fitavam o breu das tocas, a única pergunta que me fiz foi: é possível que isso estivesse acontecendo de novo? Que a história se repetisse, não como tragédia nem como farsa, mas como um fotograma de uma pedra esburacada centenas de milhares de vezes curtido nas plataformas das grandes empresas?

Pensei então que a parte realmente oculta sequer importava, isto é, o fato de que a China já despachara sondas não tripuladas para essa mesma região da Lua em 2019 e que de lá recolhera amostras do solo, enviadas para casa em seguida, mas sem o estardalho de agora.

Tudo bem, convenhamos que isso não é tão sedutor quanto o “storytelling” em torno da Ártemis, a começar por seu nome (na mitologia grega, irmã gêmea de Apolo, que batizou o programa espacial dos EUA na Guerra Fria). E, como nomear já é apoderar-se, a aventura aeroespacial rapidamente converteu o satélite natural e a missão em uma espécie de passeio na Disney, com registros da Lua em ângulos instagramáveis, prontos para virarem estampa de camiseta, que depois seriam compartilhados pelos canais da Nasa, uma agência tão empenhada na manutenção do poderio do país de Donald Trump quanto qualquer indústria (incluindo-se Hollywood).

Por que esse fascínio?, eu me encafifava, preso àquelas imagens que não diziam nada, não revelavam nada, não mostravam nada. Exceto nos momentos em que alguém aparafusava algo solto num cenário de fios e placas que lembrava um datacenter à deriva no vácuo, o que me deixava mais nervoso com a hipótese de qualquer coisa sair do controle e todos acabarem morrendo.

Era isso: o poder sugestivo do relato e do campo simbólico – ou da narrativa, embora venha evitando essa palavra – se impunha pelo que tinha de performático e ficcional, e não pelo que era prioritário para a humanidade a esta altura dos acontecimentos (direcionar a atenção global para os conflitos armados no plano terráqueo, por exemplo).

Afinal, cratera por cratera, e não há dúvida de que as depressões lunares flagradas pela Ártemis competem em beleza e profundidade com qualquer outra, tem-se a opção mais barata de olhar para os buracos deixados pelos bombardeios no Irã ou em Gaza, onde drones despejam explosivos sob a ameaça tanatológica de Trump, que prometeu, como um deus da morte, dizimar “uma civilização inteira” num estalar de dedos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...