Digo e repito: o celular é o novo bocejo. Duvida? Repare que basta o vizinho deslizar os dedos pela tela luminosa para que, automaticamente, essa coceira se instale pelo corpo, especialmente nos dígitos, só se extinguindo depois de uma consulta ao aparelho, mesmo que não haja nada para se ver ali, já que apenas um minuto ou dois atrás você tinha verificado e descartado a existência de qualquer notificação, de modo que, nesse ínterim, nada de novo havia se produzido, pelo contrário, tudo era mais do mesmo, dentro e fora do celular, exatamente porque não houvera tempo para que o que quer que fosse tivesse acontecido, e sem tempo as coisas de fato seguem iguais no mundo, uma vez que uma das condições para que uma alteração significativa na qualidade dos objetos que se deterioram e dos seres que se estragam é essa passagem entre as horas e os dias e os anos, ou seja, o acúmulo de tempo, ou o tempo perdido, mas talvez seja isso que a consulta sistemática ao aparelho a cada cinco minutos ou menos pretenda evitar, me refiro à extinção do tempo, não sua detecção patológica e reiterada, mas sua suspensão pela checagem permanente, afinal o tempo de fato se relativizaria se a matéria da qual é feito não estivesse visível, se sua materialidade se esfalfasse diante do bocejo, se o mesmo minuto se mostrasse ali.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
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