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Iracema

A velha no terreiro da casa é minha avó. Está de braços estendidos, as mãos espalmadas para cima, os olhos fechados, o cabelo escorrido. A pele escura, mais para terra, os olhos gateados e um nariz bojudo.

Sem o vestido gasto do dia a dia, que havia tirado e agora se encontrava enrodilhado no batente da cozinha, rente à porta que dava para o quintal amplo, com a goiabeira e as galinhas, os patos e outros bichos criados soltos, misturados aos que apareciam na vizinhança descampada.

O corpo rijo de mulher jovem, nos braços umas marcas cuja origem não se sabia. A mãe, pelo menos. Eu também não. Talvez o tio soubesse, mas ele morreu de covid logo no começo da pandemia, o mais velho dos irmãos ainda vivos, de modo que os segredos da avó se enterraram com ele.

Todos os demais estavam desde muito cedo estragados pelo trabalho com a borracha na região norte, comidos pela bebida e o cigarro ou extraviados na mata boliviana, devorados por onça ou doença ou aposta no jogo de baralho.

É 1965, um pouco antes, um pouco depois. Sei disso porque foi a única vez em que caiu granizo na cidade. Era começo de noite, ou quem sabe fosse tarde, não posso assegurar, as fontes vacilam se olhamos para muito atrás, para um tempo ao qual não se tem acesso senão pela fabulação.

Nessa zona de opacidade, a história é incerta e os personagens, desconhecidos, à exceção da avó, ou nem mesmo ela, que parecia conjurar não sei que forças quando se punha nessas situações de histeria.

Os lábios mastigavam frases de adivinhação cuspidas para o alto, como esses bichos que se divertem com as presas antes de finalmente abocanhá-las. Um dia antes, havia matado um carneiro, embora não houvesse ligação entre uma coisa e outra, a chuva de pedras e o animal abatido com as próprias mãos, o gelo e o sangue entre os dedos.

Onde eu estava? Longe dali, muito longe. A mãe era uma meninota escorada na janela, ou suponho que seja ela de tudo que vou apanhando no ar. Espiava minha avó, que se ajoelhara a pretexto de descansar, as mãos agora recolhidas. Não mais o gesto em prece, mas um abraço que contornava o ventre, um enlace que poderia ser de dor ou de riso.

A cena toda foi narrada num almoço uns dias antes. Todos de repente calados à mesa. Pesquisei nos jornais da época: de fato despencara granizo naquele ano, depois disso nunca mais, apenas chuva molhada e olhe lá.

No Ceará não costuma haver registro desse tipo de fenômeno: “Chuva de granizo em Iracema assusta moradores”. Mas não era verdade.

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