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De novo aquela cena

Entro na livraria do bairro, aquela bem-vinda lufada de ar-refrigerado e uma algaravia de conversas, uma roda formada aos fundos e gente ao telefone, o proprietário enterrado numa cadeira, a mesma garrafa de café ruim, o mesmo cheiro de modorra, a sensação de que mais uma vez vou cotejar preços e sair sem comprar nada, a culpa que me acompanha nessas horas, o fato de que, ao fim e ao cabo, priorizo uma grande plataforma de e-commerce em vez de estimular o comércio local em vias de desaparecer, o sentimento de que logo mais a única livraria do bairro pode também morrer exatamente por causa de pessoas como eu, o alívio que sinto por concluir que nada me obriga a sustentar nenhum negócio, mesmo que seja o de livros, a justificação que encontro para tomar a decisão de adiar novamente uma compra, o recuo que se segue, a subida ao setor de livros usados para quem sabe escolher algo que não seja tão caro, finalmente algo que talvez me interesse, o cheiro do livro, como é bom sentir novamente aquela mistura de tantos elementos químicos em reação simultânea, tudo catalisado por anos e anos, a massa fermentando sob a umidade do quarto dos fundos da casa transformada em livraria, os pisos dos quartos, a cozinha, o banheiro, a sala de estar, todos os cômodos convertidos numa loja, que é a última loja não apenas do bairro, mas da cidade, todas as demais ou são papelarias ou são livrarias de shoppings ou papelarias em shoppings, o que faz da experiência de entrar na livraria depois de tanto tempo uma coisa tão próximo do sagrado, do ambiente de uma igreja, mas também de um bar, e de um banheiro de universidade, e de um bainheiro de bar frequentado por estudantes, isso tudo ao mesmo tempo numa manhã de sábado, quando se supõe (eu suponho) que todos deveriam estar na praia numa cidade como Fortaleza, mas estão ali, um grupo incrustado contra uma parede como se fossem fungos, homens de uma certa idade conversando animadamente como se compusessem uma confraria, orgulhosos dos laços que estabeleceram entre si ao longo do tempo, felicitando-se mutuamente porque se reconhecem como Pessoas Interessadas em Livros, como Pessoas Para Quem os Livros Importam, e quando falamos de livros automaticamente estão descartados livros de colorir e outros como “romantasia”, fantasia para adultos, aquela gente celebra a Literatura, com L maiúsculo, aquela gente levanta no sábado de manhã para resistir como leitores, como autores, como Escritores Cearenses, um clã muito restrito, muito privê, formado por cinco ou seis pessoas, metade das quais se detesta, mas nada disso impede que continuem a se encontrar a cada fim de semana de todos os meses do ano, excetuando-se os de Natal ou Ao Novo, enfim, saio depois de uns quarenta minutos andando e sorvendo a atmosfera, que já me pareceu interessante mas hoje é apenas curiosa, engraçada, cômica, caricata em algum sentido, mas também saudável, nada se decide ali, nada de prático se discute, nenhuma grande revolução nasce daquela mesa, apenas conversas de compadrio cujos tópicos são a própria Livraria e os Livros e tudo que cerca esse universo tão caseiro.

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