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Bem-vindo ao deserto

Espaço vazio de convívio e devotado ao vaivém de delivery, a pizzaria se converteu nesse lugar de passagem onde a presença do cliente – no caso, a minha – era considerada como um quase inconveniente para o atendente.

É pra levar? Como é, vai comer aqui mesmo? Tem certeza de que quer fazer como “os antigos” e puxar uma mesa? Vai aguardar e abrir a embalagem na pizzaria, e não em casa, no conforto da sala, vendo um episódio da série preferida ou ouvindo uma música escolhida por você?

Pensei duas vezes. Tive dúvidas se não estava fazendo algo errado, obsoleto, contrário ao regramento usualmente admitido na minha comunidade, como utilizar pochete quando pochetes tinham saído de moda. Estava ali, parado, esperando que meu pedido ficasse pronto e fosse servido para então começar a comer. Nada de outro mundo, embora soasse dessa maneira.

Mas alguns locais da cidade parecem ter deixado de lado esse aspecto coletivo, tornando-se corredores de passagem, meros entrepostos entre a mercadoria demandada por um usuário ilhado, aguardando a entrega enquanto acompanha o processo de deslocamento pelo aplicativo, o humano reduzido ao signo da moto.

Uma aridez que as plataformas tentam tornar mais simpática atribuindo valor: um gorro de Natal quando é Natal, umas asas de morcego no automóvel quando é Halloween e por aí vai, de modo a fazer lembrar que dentro do veículo tem gente.

Mesmo quem se atreve a ir até a pizzaria, ou seja, quem sai de casa para ir ao balcão e pedir seja lá o que for, depara-se com esse cenário urbano já em mutação, povoado por motoboys aglomerados em torno de aparelhos luminescentes cujas telas se acendem, emitindo bips a cada nova rodada.

Ali, o cliente é menos cliente e mais testemunha do processo de virtualização do trabalho e do consumo encapsulado, confinado no ambiente doméstico tanto pela comodidade quanto pela segurança, fator de risco levado em conta por uma massa que adere ao aplicativo como estilo de vida e opção antropológica, ainda que ao final isso reduza as interações sociais a um patamar nunca antes visto (talvez essa seja a intenção).

Respondo que sim, vou comer na mesa. Afinal, era uma pizzaria. Então o atendente, que até agora se dividira entre mim e uma corrida atrasada cujo cliente estava insatisfeito, tira uma cadeira da pilha num canto e passa um pano sobre a mesa de fórmica de outra era geológica.

Eu me sento, mas não era como se estivesse lá para jantar, mas para trabalhar. O tempo de espera foi de aproximadamente 20 minutos, durante os quais oscilei entre as notícias e a tela do computador no qual um segundo funcionário administrava as rotas, dezenas de pontinhos espalhados pela região onde moro e mesmo fora dela. Em cada um deles uma transação invisível.

Nesse intervalo, apenas outro desavisado teve a mesma ideia que eu, isto é, ir pessoalmente comprar uma pizza e pagar, com as próprias, pelo que pretendia consumir. Os produtos, no entanto, não paravam de sair, caixas e mais caixas abertas, dentro das quais os balconistas acomodavam discos de massa assados com bordas sequinhas metade três queijos e metade pepperoni (minha preferida).

Considerei se haveria uma moral nessa história toda, e decidi que não. Ao menos não como uma moral severamente negativa ao fim da qual o narrador aplica uma sanção indeterminada, que permanece como retrogosto de uma falência generalizada mesmo depois da leitura – uma atividade tão solitária quanto comer uma pizza na pizzaria.

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