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“A filha perdida”: filme e livro

 

Há dias venho adiando o momento de escrever sobre o filme “A filha perdida”, de Maggie Gyllenhaal, não sei exatamente por que, se porque evitei o quanto pude assistir à adaptação por algum receio qualquer; ou se porque impus a mim mesmo um tempo razoável entre ter visto o filme e revê-lo criticamente, de modo a deixá-lo repousar, decantando, e assim poder ser mais justo com uma obra que, embora seja próxima daquela da qual extrai seus elementos, também se afasta, e esse afastamento é menor ou maior em momentos diferentes do filme, com resultados diferentes dos obtidos no livro.

Creio que há duas maneiras, grosso modo, de olhar para o longa: como obra autônoma que é, deixando de lado o fato de que exista um romance no qual se origina; e como peça adaptada de uma outra.

Uma terceira possibilidade, que tento colocar em prática mas fracasso, é vê-lo num lugar entre esses dois, reconhecendo-lhe méritos, mas apontando o que, para mim, são insuficiências, não sei se da adaptação em si ou de perdas naturais na transposição de histórias da literatura para o cinema – e nisso vai um julgamento preliminar: há quase sempre materiais que se extraviam nessa tradução de um gênero a outro.

O ideal seria, portanto, apreciá-lo duas vezes, uma para cotejar com o livro, num exercício de comparação cena a cena, que foi o que fiz e não recomendo. E outra para apreciar apenas o filme, sem preocupações com o que a diretora fez com a história de uma autora (Elena Ferrante).

Fosse “A filha perdida” qualquer livro de uma qualquer escritora, talvez não houvesse essa preocupação com o grau de fidelidade do cinema à literatura. Mas estamos falando de um romance já bem recebido de uma autora igualmente festejada cuja identidade não se conhece, num mistério que acrescenta uma boa camada de fascínio a sua literatura.

Como obra autônoma que é, “A filha perdida” é ótimo filme, com atuações notáveis. Leda, em suas versões jovem (Jessie Buckley) e adulta (Olivia Colman), é arrebatadora. Gosto também da Nina de Dakota Johnson, que tenta fazer o que pode para transmitir com poucos recursos um turbilhão de sentimentos represados e, ao menos no livro, não ditos, porque tudo se passa a partir da perspectiva de Leda, que narra a história em primeira pessoa, filtrando pessoas e espaço.

Gyllenhaal maneja os recursos do cinema de maneira a potencializar aspectos do livro de Ferrante, como o contraste entre paisagem e conflitos. A fotografia é exuberante e a música, um personagem da obra audiovisual. O ganho é imenso e a adaptação, “fiel” – embora não goste do termo, exatamente por pressupor que haja uma ideia precedente a qual essa nova obra devesse prestar contas.

Quando se considera “A filha perdida” como adaptação de um livro, porém, há ressalvas a fazer. A primeira delas é o fato de que a obra de Ferrante está assentada num espaço e numa língua que a definem e estabelecem os pontos de tensões e núcleos de problemas que a autora obstinadamente elabora a cada trabalho, mantendo-se a despeito da mudança de paisagem/personagem.

Relação mãe/filha, patriarcado, subalternidade, ascensão social, violência, educação, língua etc. são alguns desses temas ferrantianos por excelência.

O par mãe/filha, por exemplo, remonta a gerações, retraçando-se um fio que vai percorrendo os laços de sangue, indo de um lado a outro, como o no caso de Leda, que constantemente se vê em confronto com a mãe, uma tensão que demarca também o cotidiano com as duas filhas, agora adolescentes e morando com o pai em outro país.

Mãe e filhas, filhas e mães, essas figuras estão se intercambiando a todo momento em Ferrante (“uma mãe não é nada além de uma filha que brinca”, escreve a autora), em saltos no tempo e no espaço, mas são também marcadas na língua, com as cisões e implicações entre o idioma italiano e sua variante napolitana – falarei disso adiante.

À ameaça da fuga da mãe, segue-se uma ameaça representada pelo mundo de origem, quase sempre a cidade ou o bairro onde vigem as normas sociais que dificultam a mobilidade, sobretudo das mulheres, encerradas num papel desde muito desenhado para elas.

O que no livro é uma reflexão no contrapelo que investiga a fundo relações de sangue (entre Leda e Nina, entre Nina e Elena, entre Leda e a mãe, entre Leda e as filhas) e as posições sociais da mulher (a mãe napolitana e camorrista, por exemplo), constituindo uma preocupação que está no centro de toda a literatura ferrantiana, no filme é um elemento mais epidérmico, tratado com certa ligeireza.

A Leda de Ferrante é uma mulher com um passado familiar, uma mãe característica, uma língua e uma cultura da qual frequentemente tenta fugir, escapando do dialeto como quem tenta evitar um destino trágico, que é o destino de todas as mulheres que permaneceram no bairro e na cidade.

Mesmo o livro infantil “Uma noite na praia” está marcado por essas linhas de força, que, no entanto, se não estão ausentes de “A filha perdida” (o filme), estão atenuadas, quase desidratadas – as disputas em torno do dialeto, tudo que ele representa como uma ameaça constante, por exemplo, inexistem na obra fílmica.

Assim como também inexiste qualquer referência aos conflitos vividos entre Leda e a própria mãe, praticamente onipresentes na obra literária, mas também entre Leda e o mundo da família de Nina, em relação a qual ela mantém uma postura ambivalente de atração e repulsa.

Atração porque é o mesmo mundo do qual Leda provém e repulsa porque sintetiza a violência, os vícios e a incultura dos quais ela sempre procurou se distanciar ao longo de sua formação.

A própria ideia de repulsa, um sentimento que dá sustentação ao livro, está em falta no filme, que desloca as ações de Leda e as organiza num plano único. Como se limpasse o terreno, Gyllenhaal concentra o foco naquilo que lhe interessa, desobrigando-se de tratar de outros aspectos da obra.

Logo, há uma dimensão vital da literatura ferrantiana que resistiu, ao menos nesse caso, à adaptação, primeiro porque se trata de obra em inglês, segundo porque a diretora situa noutro espaço que não o da geografia italiana, terceiro porque abriu mão (talvez em benefício da fluidez da narrativa audiovisual) de uma voz que pudesse demarcar os conflitos que atravessavam Leda naquele momento da vida.

Fora isso, há pequenas decisões da cineasta que, se não alteram drasticamente o quadro geral da história, contribuem para que se possa dizer que a Leda de Gyllenhaal é ligeiramente diferente da de Ferrante.

Se “A filha perdida” de Ferrante é um mergulho nos detritos e na fragmentação do corpo feminino, nas tensões do meio, nas estratégias de escape e na força da cultura patriarcal, que se reflete inclusive na linguagem, a de Gyllenhaal é um olhar sobre a superfície: um olhar que mapeia e identifica feridas com a força de quem sabe representá-las em imagens, mas, numa comparação com o livro, se se pode aceitar esse tipo de procedimento, fica devendo.

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