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Round 6 made in Ceará

 

Não é exagero dizer que a infância de qualquer cearense na periferia de Fortaleza nos idos dos 1990 se aproximou em alguma medida da série Round 6. Não digo que houvesse disputa feroz cujo desfecho era a morte, mas quem brincou de polícia e ladrão, bandeira, pau de fogo e outras estripulias sabe o quanto a sua integridade física estava em risco assim que punha os pés na rua.

Que, por si só, já representava um perigo: mal calçamentada, cheia de desníveis, esgoto correndo livre, com pedras expostas nas quais deixávamos uma banda do dedão jogando bola ou parte do joelho depois de cair e esfolar a perna, salgada com mertiolate a gosto do sadismo materno ou paterno.

Quantas vezes não levei surra da mãe depois de apanhar numa disputa de bandeira ou de pau de fogo, quando voltava com os pulsos vermelhos das vergastadas que recebia após perder rodadas sucessivas e ficar com o braço dormente e inchado, com marcas que levavam tempo para se apagar.

Não era bonito nem saudável, mas era o que tinha pra fazer naquela época sem TikTok ou Netflix. Divididos em grupos, lá íamos, caçadores e presas, os dois times avançando pelas esquinas quando faltava luz. E ai de quem fosse encontrado primeiro, os sopapos eram sempre mais duradouros e as pernadas nas costas, mais enérgicas.

Até que os mais frágeis pediam para sair. Depois os mais cansados. Quando só restavam uns poucos, a brincadeira ficava chata, porque o bairro era um mundo e encontrar os outros podia demorar uma eternidade.

Apenas hoje, já adulto e muito distante da selvageria daqueles anos, me surpreendo que tenha sobrevivido a tanto tempo de jogos infantis numa era cuja diversão envolvia quase sempre massacrar os mais fracos e cujo modelo de macho eram Stallone, Schwarzenegger e Van Damme, ou seja, os caras que víamos bater nos outros com um prazer que fazia aquilo não apenas parecer fácil, mas também o certo.

Brincar era sinônimo de infligir sofrimento em doses progressivas a alguém, e esse alguém muito frequentemente era você, e é aí que começavam os seus problemas, que podiam durar apenas alguns dias, se tivesse sorte, ou meses, caso não fosse o seu momento mais alvissareiro.

Nessas condições adversas, havia situações que tornavam tudo ainda mais penoso, aumentando o grau de complexidade para completar cada rodada – ou cada round, como se queira. Se se era novato no lugar, mais baixo, mais ensimesmado, sem primos, franzino, enfim, alguém com todos os atributos para se tornar o saco de pancadas da vez ou pedir penico antes.

Cada disputa implicava uma luta por sobrevivência de uma maneira que não era só metafórica, mas também real, da qual dependia o tipo de vida que nós, crianças de rua, teríamos no bairro depois de proclamado o resultado de alguma refrega.

Se a gente era o vencedor ou parte do grupo, podia ter um pouco de tranquilidade e gozar de liberdade e respeito para andar por certos lugares, como a quadra ou o centro comunitário. Mas, se calhasse de estar entre os derrotados, a coisa podia piorar, com aquele pesadelo se estendendo por dias.

E, como se não bastasse, às vezes ainda tínhamos a má sorte de chegar em casa ao fim do dia e encontrarmos nossa mãe empunhando uma Havaiana com prego trespassado no cabresto contando batatinha frita 1, 2, 3, uma visão que era garantia de que algo ali não iria ficar bem nos próximos segundos e que talvez fosse melhor correr – ou ficar parado.

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