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Mara Hope

Volto à praia para uma volta de bicicleta depois de, sei lá, alguns meses, período no qual pensei que encontraria tudo mudado, o avesso da paisagem desfeita por máquinas, tratores e homens, o antigo apagado e o novo como que escrito por cima, sobrescrito, como se faz com texto no caderno de pauta da escola.

Uma cidade que é eterna rasura, nela mal se escreve e já se apaga, de modo que as folhas estão sempre cheias de grafismos atrás de grafismos, do velho resta então o traço adivinhado na falta, o novo como a projeção de algo falhado.

Uma geografia enviesada, torta, feita de areia remexida, os espigões recém-construídos e a quebra de mar avançada, distante, como aos poucos fossem empurrando a água ante o avanço dos prédios, que é como a lógica opera. A ressaca é do tijolo, da construção, não da maresia.

O mar se encurta a pretexto de alargar faixa de chão para que banhistas e moradores tenham onde armar seu guarda-sol e os donos das varandas onde descansar a vista deitados nas redes. Mas exagero ao dizer que se deleitam, ali quase tudo é deserto, as varandas também, desabitadas por completo.

Nessa nova praia não se vê mais a água, mas o estirão de areia e, súbito, a queda. Afunda-se ali com facilidade, é uma fenda no espaço-tempo, uma ruína sempre em construção, essa depressão após a qual tudo é zona de risco a quem se aventure a mergulhar.

Desgosto e gosto dessa Beira Mar. Desgosto porque a tornaram mais cafona ainda, e gosto porque sou parte dessa cafonice, não saberia não sê-lo.

Mas sinto falta de certos elementos. Os trenzinhos da alegria, por exemplo. Ausentes, antes parte indissociável daquilo. Foram embora com os trenzinhos, desapareceram com essa atividade irregular, caótica, regida por espírito circense de risco e aventura.

Deles restou somente esse ônibus mais robusto e enfeitado que vejo passar enquanto pedalo ouvindo música, um veículo estridente, com muitas luzes e barulho, em que um Homem-Aranha solitário batuca os dedos na porta, sem lembrar o acrobata de outros dias.

Não lembro de ter visto super-herói tão triste quanto aquele.

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