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Naturalizar o vácuo

Alguém disse que é preciso “naturalizar o vácuo”, ou seja, a resposta não dada não de modo deliberado, mas não intencional, resultado do acúmulo de demandas, de mensagens em múltiplas plataformas por 24 horas, num diálogo que não se interrompe em qualquer momento do dia.

Então me veio à cabeça que hoje estamos sempre devendo algo a alguém, por todo canto levamos essa agoniada sensação de que temos de responder e dar continuidade a alguma comunicação cujo início já perdemos, mas que segue suspensa, numa aflitiva lacuna que fica guardada num cantinho do juízo.

Um retorno, uma confirmação, seja de email ou mensagem de Whatsapp, no Instagram ou Facebook, um comentário numa caixa, uma ligação não atendida para a qual ainda não temos devolutiva à altura e por isso a estudamos mais um pouco, mas é justo esse "pouco" que causa estridência e produz ruídos. Não há tempo para espera.

O fato de que exista um sem número de modalidades de interlocução apenas potencializa às alturas também os labirintos e becos sem saída, as hipóteses de silêncio e eventualmente os desentendimentos. Tudo fruto, certamente, de um adiamento, de um pensamento do tipo: responderei depois.

Esse depois hoje é impensável porque nem mesmo no imediatismo do agora é possível esgotar essas incontáveis janelas que se abrem e alertas que sinalizam para um novo diálogo.

Daí o déficit permanente de relação, um sentimento de que faltamos sistematicamente com os outros, um pedido de desculpa previamente engatilhado na ponta da língua caso alguém nos aborde e pergunte sobre aquela resposta que ainda não lhe demos.

Qual a saída para esse círculo do inferno contemporâneo? Assumir que a oferta de conversa superou desde muito nossa capacidade de estar em todos os lugares, mesmo virtualmente, e, como se diz, “naturalizar o vácuo” educado, o esquecimento, o trabalho do inconsciente e do recalque da memória.

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