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A língua do BBB

 

Quando acordei de sonhos intranquilos, a demanda egoica ainda estava lá, agenciada por um comportamento tóxico em favor de uma atitude perversa que eu havia tentado recalcar, mas sem sucesso.

Afinal, quem eu era para, às 10 horas da manhã, ainda estar dormindo, escancarando privilégios (reais) e potencializando gatilhos (verdadeiros) entre pessoas cuja vida era um território povoado por toques de despertador tão logo o galo cantava?

Atravessado por esse afeto incômodo e moído de culpa matutina, corri à mesa do café, que já estava cuidadosamente posta, mas por quem?

Esse sentimento apenas reforçou a narrativa de que a desconstrução do homem branco, cis e hetero não podia aceitar as facilidades classistas, mecanismos cuja finalidade era sabotar o lento processo de harmonização política que eu fazia, tal qual Fiuk, esse, sim, um cara que investia grandão na reformulação de sua psique opressiva.

Então joguei tudo fora e preparei eu mesmo o desjejum, certo de que o trabalho da experiência laboral de estralar um ovo era contínuo. E que jamais poderia me esconder atrás de uma pauta coletiva por interesse próprio, malocando egoísmos e traficando desejos que eram unicamente meus, fazendo-os passar como item de uma carta aberta assinada pela diretoria de um centro acadêmico de humanas.

Vida que segue, eu disse a mim mesmo, num coaching reverso que me ajudava a superar esses impasses num estalar de dedos.

Como primeira medida desse novo homem branco, cis e hetero em processo de desconstrução que eu me tornava, decidi me desembaraçar deste léxico acadêmico-afetivo sequestrado das aulas da pós, uma língua do P só entendida por quem também falava o mesmo idioma tatibitate: o Esperanto dos desesperançados.

Seja em que ambiente fosse, eu fazia jorrar esses termos de intelecção complexa e demorada, criando mais ruído do que diálogo e me beneficiando diretamente da cara de espanto dos meus interlocutores toda vida que abria a boca.

Eu sentia que precisava abandonar urgentemente esse permanente estado de defesa de dissertação (popularmente conhecido como “lumenês”), e passar a adotar posturas mais descontraídas, até banais.

Tudo em vão, claro. Eu não conseguia, talvez porque o espaço do meu imaginário já houvesse sido dominado por vocábulos sem os quais eu não conseguia mais construir nenhuma sentença. Mesmo quando a pergunta era “crédito ou débito?”, eu tinha a necessidade corporal de encaixar um “deslizamento” ou uma “potência” na minha resposta.

Convocado ao desejo de não oprimir linguisticamente minha audiência mobilizando essa gramática mistificadora e colonizada por uma episteme anglo-saxã, mas incapaz de efetivamente aceitar o desamparo que é abrir mão desse instrumento tão eficaz e confortável, me senti vulnerável como nunca. E chorei. Chorei arcrebianamente.

Desabei, tal qual um organismo microbiano solapado em sua individualidade por um polvo de muitos braços. Um choro convulso de homem hetero, branco e cis privilegiado. Choro sem lágrimas, mas silenciado em sua tentativa de se manter humana e escrotamente dominante.

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