Pular para o conteúdo principal

Família



Fui encarregado de contar a história da família, reatar um fio que se perdeu muito tempo atrás com a morte dos meus tios e o desaparecimento de uma tia, a morte da avó, a quem perguntava de onde tínhamos saído, de quem descendíamos, se tínhamos uma raiz, uma ramificação que fosse, um pedaço de chão onde se pôs a matéria viva a que se pode chamar de origem.

Porque era importante para mim entender que havia começo, deslocamento, uma geografia natal e um tempo antigo do qual se projetava o futuro, o tempo estirado de agora, o meu tempo.

Mas é difícil recuperar esses vestígios, retraçar uma errância, narrar a deriva, contar a ruína. É como remontar o desenho sem todas as peças, equipado com nada mais que as mãos que se esfolam ao cavar.

A família é esquiva também. Dela sei muito pouco, apenas o que fui acumulando no próprio corpo e na memória, nos guardados que arrebatei escondido como criminoso ao entrar num quarto ou abrir uma gaveta sem que dessem por mim naquela hora morna da tarde ou da noite.

De repente, saía com uma imagem, uma peça, um disco ou qualquer artefato que ajudasse a recontar e voltar aos anos de 1920 ou 1930.

Descobri então que o avô se evadiu quando pode, meteu-se noutro lugar, noutro estado, de lá não se tem sinal de vida ou morte, embora haja mais razões para crer em sua morte do que na vida. O avô como esse desaparecido, o homem a quem nunca víamos, o abandono desde sempre uma presença.

Poucos escritos, quase nenhum rastro, fotografias atiradas ao lixo, coleções de cartas perdidas, registros extraviados. E as figuras mais recentes que também se dissiparam porque as esquecemos entre tantas mudanças, em cada casa que habitávamos se retinha uma parte. Deixámos pegadas para frente e para trás. Tudo como se houvesse um esforço deliberado de apagar-se.

A família sem retrato na parede, sem patriarca, sem matriarca, um ajuntamento de pessoas cujo elo mais forte, o de sangue, há muito vinha minguando de geração em geração e disso restava o muito pouco que era eu.

E por isso eu procurava todo dia por caco de memória, tira de pano de vestido, uma panela, um chapéu guardado, uma muda de roupa, um estojo que a avó tenha usado, um anel que recebera de presente. Difícil contar uma história a contragosto de quem a viveu.

E a da família é como a da minha cidade, a de Fortaleza, uma rasura sobre rasura. Nela escreveu-se sobre o que já se tinha escrito, dificultando o acesso a esse ponto anterior, esse que busco por meio das sombras que vejo.

Mas é preciso encontrar nesse exercício de exaustão e desaparecimento uma grafia, ainda que seja a história de um findar-se, a história de impor a si e aos seus a continuidade de uma morte atualizada.

Afinal, na família, mais que a morte, foi a dúvida que sempre rondou, os mitos domésticos cercados de casos de dissolução física, escapes e desatinos, um disfarce de onde se veio, um apagamento. O mistério que tudo isso despertava ao ouvir fabulações do tio enfiado na mata, do primo invertido, da tia louca.

Nenhum retorno, apenas partida, desaterro, como se descendêssemos de uma fantasmagoria, a origem como uma ideia movediça que se afastava quanto mais eu me aproximava.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Urikianas”

De memória, lembro do bar e o do rosto miúdo atrás dos olhos apertados, reluzentes, afogueados. Que ano era aquele? Tinha pressa, queria conversar, mas já estava de partida. Durante todo esse tempo, tive essa impressão de que era dessas pessoas que falavam enquanto se despediam, instaurando nesse movimento uma presença-ausência precocemente exibida. Parte de si ia embora, outra estava apenas de chegada, num desencontro de corpos e de tempos. A quem me perguntasse, dizia: estou esperando o livro que Urik escreve, tenho certeza de que guarda algo, de que é o portador de um segredo muito bem escrito, de que o que se lê é apenas ensaio, um jogo que se arma nessa vacância de espírito, exercícios de prazer. Então deu-se o sumiço. Soube que viajara, que estava longe, que exorbitara as fronteiras, que se desvanecera. Onde agora? Minas seria um paradeiro possível, no Rio fora visto entre árvores, em São Paulo uma fantasmagoria, esse perfil sem contorno que às vezes assumia mesmo em Fortaleza,...