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Azulejos*


Levanta a cabeça, sacudido. Teria ouvido? Bem verdade que estava distante, a metros da rua. Apura os ouvidos, o vento açoita com a janela aberta. Apenas ouve. Ou pensa ouvir: o que quer dizer com isso? Nada?

A vizinhança cheia de crianças, meninos e meninas encardidos, calções em trapos, olhinhos sujos e bocas arreganhadas. À tardinha, improvisam jogo de bola em frente à casa, tijolos fazem as vezes de trave. As meninas, naquelas tardes de sol esmaecido, apenas observam. Algumas até se arriscam a jogar, mas logo desistem – coisa bruta, futebol. De repente, enroscados, dois ou três medem força.

A leitura já perdida, nunca mais a alcançaria. Não enlouquecera – entre os gritos, distinguiu o mais agudo. Lamentações. Resmungos, chiados, grunhidos.

Largou lápis e livro sobre a mesa, agora inteiramente voltado à algaravia. 

A mãe a deixou sozinha em casa. Costume. Foi à feira? De braço com o namorado dando voltas e voltas na praça? Àquela hora? Era muito cedo, coisa de quatro da tarde, se tanto. A menina geme, estacando um segundo enquanto toma ar para, em seguida, reatar nova série de sons desarticulados.

Onde a mãe? Com um e outro, corria à meia-boca, sempre à cata de menino bonito, lábios grossos e cabelos negros. Ou loiros, que não tinha tanta diferença, era mulher de grandes apetites e nenhuma exigência. Flertava com o vento.

Tem sido assim nos últimos meses, a mãe sai de casa, sempre nos mesmos horários, e, na modorra da tarde, a menina diz coisas desconexas – distinguira, entre todos os gemidos, algo com que construíra a imagem de uma criança de seis anos, não mais que isso. Tinha pena dela, sozinha, fantasmas em torno, restos de comida na geladeira – haveria uma geladeira?

Súbito, a mãe retorna. Passos pesados, rosto desfeito em careta. Na sala, procura rapidamente o cinzeiro. Dribla a menina, que tenta agarrá-la pela barra da saia, a roupa amarrotada. Aceso o cigarro, tranca-se no banheiro. Leva horas com o olhar fixo nos azulejos azuis e brancos que a faziam lembrar de outra coisa. O quê?

Na soleira da porta, Fabiana dorme abraçada às sandálias da mãe.

[Conto escrito entre 2004 e 2005 e publicado num blog antigo em 1º de setembro de 2006]

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